Poetas repentistas Sebastião da Silva e Moacir Laurentino cantando um Dez de  Galope na Beira do Mar.

 
* * *

Poetas repentistas  Hipólito Moura e  Rogério Menezes cantando um Galope na Beira do Mar.

* * * 

Poetas repentistas Raimundo Nonato Costa e Nonato Costa glosando o mote

“Eu dou um show respondendo,
se for ao show do milhão”.

* * *

UM FOLHETO DE ZELITO MIRANDA
 
SEGUNDA PELEJA DO GALO DE CAMPINA COM  ZÉ MIRANDA DE SERRINHA
 
Leitores peço atenção
Pois aqui eu vou contar
Uma peleja medonha
Que fez o sertão calar
E quem viu essa peleja
Nunca mais vai olvidar

Na casa de Seu Miguel
Sempre teve cantoria
Por lá passaram Otacílio
Zé Limeira, João Maria
Santinho, Camilo, Grande
Pregídio e Pedro Arrelia

Mas nesse dia, leitores,
Seu Miguel convidou
Dois cantadores famosos
E uma festa preparou
Chamou um monte de gente
E a sua sala arrumou

Convidou dois cantadores
Que a fama deles já tinha
Se espalhado como um raio
Da Paraíba a Varginha
O primeiro deles era
Zé Miranda de Serrinha

Zé Miranda era afamado
Cantava de qualquer jeito
No triangulo ou na viola
O seu verso era perfeito
Da sextilha ao beira-mar
Desconhecia sujeito

Tinha uma viola brilhante
No pescoço um lenço azul
E na camisa um desenho
Parecendo um sanhaçú
Um chapéu de cangaceiro
Com cinco estrelas do sul

Prá cantar com Zé Miranda
Nessa noite nordestina
Seu Miguel convidou
A voz que não desafina
O poeta Trupizupe
Que era o Galo de Campina

Este como o nome diz
Tem um galo na garganta
Pois quando dá um aboio
O mundo todo se encanta
Enfeitiça até  marreco
Coruja preá e anta
 
Ele tinha um par de óculos
Que seus olhos ocultava
Usava um anel de ouro
Que o brilho quando tocava
Era um raio tão brilhante
Que a vista se encandeava

Zé Miranda com o Galo
Juntos já tinham cantado
Foi um desafio histórico
O qual ficou empatado
E para grande desforra
Já tinham se preparado

Para esses dois menestréis
Os versos não tinham mistérios
Das sete grutas do encanto
Aos tenebrosos impérios
Tinham versos que cruzavam
Planetas e hemisférios

A fazenda São Miguel
Estava toda arrumada
O Galo com a viola
Andava pela sacada
Zé Miranda no terreiro
Animava a garotada

As oito horas da noite
Os violeiros entraram
No meio da gritaria
As violas se afinaram
Gostamos de cantoria
“As moças logo gritaram”

De repente o silêncio
Tomou conta do salão
No mesmo instante as violas
Atacaram num rojão
Que até os anjos do céu
Prestaram muita atenção

Galo de Campina

- Eu jamais imaginei
Que de novo te encontrasse
Frente a frente na viola
Prá mostrar a nossa classe
Vou cantar hoje contigo
E acabar o velho impasse

Zé Miranda

-Você falou no impasse
Da nossa outra cantoria
Na fazenda São Miguel
Até o raiar do dia
Aquele empate foi justo
Mas hoje a coisa varia

Galo de Campina

-Acabe com essa alegria
Mostre que é educado
O teu nome ninguém sabe
Donde foi desencovado
Diga na frente de todos
Não precisa ter cuidado

Zé Miranda

-Nos gases fui transportado
Prá essa terra que é minha
Faço versos de improviso
Rimando dentro da linha
Quem me conhece me chama
Zé Miranda de Serrinha

Galo de Campina

-Agora entrou na minha
Venha mostrar seu saber
Prepare sua viola
Senão vai esmorecer
Com a surra que vai levar
Vai depressa se esconder

Zé Miranda

- Se teu canto vai crescer
Diga o nome que assina
Depois segure seus versos
Vamos seguir nossa sina
Pois cantar contigo hoje
Me alegra e me fascina

Galo de Campina

-Sou o Galo de Campina
Cantador da Borborema
Eu canto igual a Jandaia
Lá na terra de Iracema
Trago na ponta da língua
Verso,glosa,rima e tema

Zé Miranda

-Assim vai ser nosso lema
Cantaremos lado a lado
Os presentes vão dizer
Quem canta mais ritmado
Mas pare essa tremedeira
Prá não cair desmaiado

Galo de Campina

-Prá falar tome cuidado
Não venha querer zombar
A minha voz é tão forte
Que faz fera recuar
Não será cantor miúdo
Que venha me intimidar

Zé Miranda

-Não precisa se afobar
Meu canto é um pesadelo
Arranco folhas do mato
Arranco fios de cabelo
Se você vem me enfrentar
Vai ser grande o desmantelo

Galo de Campina

-Eu te vi em Cabedelo
Apanhando sem gritar
Te vi fazendo besteira
No momento de cantar
No fim levou uma surra
Das mulheres do lugar

Zé Miranda

-Eu não vou me afobar
Pois conheço essa história
Invente outra mentira
Se quiser contar vitória
Prá poder me enfrentar
Precisa boa memória

Galo de Campina

-Eu canto com a oratória
Da poesia absoluta
Quando canto um verso forte
O mundo inteiro me escuta
E dou soco e bofetada
Se o caso é força bruta

Zé Miranda

-Você fala em tanta luta
E o seu canto é tão minguado
Meus repentes são ligeiros
Te deixam desesperado
Brado dentro da sextilha
Balanço todo cerrado

Galo de Campina

-O meu canto é levado
Para o reino do sereno
Já surrei cantor galego
Amarelo e até moreno
Muitos deles se acabaram
Numa dose de veneno

Zé Miranda

- O teu canto é pequeno
Para me desiludir
Tu bravejas esturrando
E em seguida vais fugir
Vou ficar cantando só
Pode se desiludir

Galo de Campina

- Está querendo insistir
Pensando que me esmorece
Enquanto a viola toca
Vá rezando uma prece
Já falou tanta besteira
Que uma surra já merece

Zé Miranda

-Galo já que tu te esquece
Que comigo a tua sorte
Perde o prumo perde o rumo
Vai direto para a morte
Vai findar num matadouro
Que nem gado para o corte

Galo de Campina

-Não há mesmo quem suporte
Teu repente, esconjuro
Teu destino é a solidão
É ficar atrás do muro
Os calangos vão come-los
Pensando que é monturo

Zé Miranda

-Hoje o mundo fica escuro
Soltando chama e trovão
Me transformo numa fera
Arremesso um furacão
Te deixo desacordado
Com um tiro de canhão

Galo de Campina

-Zé Miranda é ilusão
Insistir nesta empreitada
Teu cheiro de bode sujo
Me faz mudar de toada
Vamos cantar sete linhas
Numa nova caminhada

Zé Miranda
 
-Se prepare aqui moleque
Já que quis assim mudar
Eu te vejo como um bicho
Querendo me enganar
Hoje aqui você apanha
O diabo se assanha
Enxergando o teu penar

Galo de Campina

-Não cante prá se gabar
Cante para me vencer
Quando canta se gabando
Enfraquece o teu saber
Cante direto ou se entregue
Mesmo que o diabo negue
Hoje vai ter que sofrer

Zé Miranda

- Desconheço um poder
Que alcance meu repente
Desconheço quem me assuste
Cantando de frente a frente
Num segundo se entrega
Urubu pega e carrega
Carniça de indigente

Galo de Campina

-Vejo teu canto demente
Sem nenhuma inspiração
Tuas rimas são quadradas
Parecem de imitação
Hoje tu sofre um abalo
Vou mostrar que este Galo
Não gosta de falação

Zé Miranda

-Galo aqui vira capão
E apanha no terreiro
Leva surra das galinhas
Vai expulso do puleiro
Só aí você aprende
Se for sábio se arrepende
E larga de ser desordeiro

Galo de Campina

- Cantador que é treiteiro
Só serve prá dá mancada
O povo que te escuta
Ta contendo a risada
Escolha logo outro rumo
Pois aqui tu come estrumo
Pensando que é goiabada

Zé Miranda

-Vejo que tua pisada
Esmorece com meu brado
Pra  aguentar mais dez minutos
Precisa estar preparado
Vai levar dez chicotadas
Vinte e cinco bofetadas
Nesse teu lombo suado

Galo de Campina

-Cabra oi tome cuidado
O terreno é arenoso
Teu carro vai atolar
com o teu gênio orgulhoso
Pedirá então ajuda
Pedirá que eu lhe acuda
Vai me achar poderoso

Zé Miranda

-Vou me chamar de leproso
Se de te eu precisar
Sou forte o suficiente
Para vencer o teu cantar
Cruzo o céu do soberano
Com ajuda do Arcano
Nada pode me enfrentar

Galo de Campina

-Eu não posso acreditar
Na tua força e bravura
Tu me diz isso e aquilo
Porém é mentira pura
Hoje arranco teu rabo
Te rebento te acabo
Feiticeiro te esconjuro

Zé Miranda

-Te surro em Singapura
Te rebento na Espanha
Te lasco no Eldorado
Te devoro na Alemanha
Te vendo em Salvador
Vais morrer sem sentir dor
E o diabo te acompanha

Galo de Campina

-Te pego em terra estranha
Te massacro em Milão
Te machuco na Holanda
Te arrepio no Maranhão
Te esmago em Miami
Se quiser um padre chame
Prá lhe dar extremunção

Zé Miranda

-Te violo no Jordão
Te destruo no Inglaterra
Te maltrato em Sergipe
Te enrosco em Camberra
Em solo Iraquiano
Você entra pela cano
Perdendo mais uma guerra

Galo de Campina

-Todos os cantos da terra
Eu já fiz estremecer
Do Japão a Petrolina
Fiz cantador padecer
Hoje aqui vai dar papouco
Vai chover cipó caboclo
Que essa terra vai gemer

Zé Miranda

-Hoje aqui tu vais comer
O pão que o diabo amassou
Vai levar vaia do povo
Saberás assim quem sou
E no final do combate
Vais pedir a Deus me mate
Me traga o caixão que eu vou

Galo de Campina

- Mostrarei aqui quem sou
Tua fama hoje desaba
Cantarei o céu e a terra
Pajé e morubixaba
E quando chegar o eclipse
Como o apocalipse
O teu mundo se acaba

Zé Miranda

– O cantador que se gaba
Acaba pedindo esmola
Da logo um tremor nas mãos
Quebra as cordas da viola
Só tem versos decorados
Malfeitos desaprumados
Dentro da sua cachola

Galo de Campina

- Você mostrou que controla
Seu canto muito seguro
Cantador que canta forte
Deixo o outro em apuro
Nosso canto tem talento
Se fosse outro elemento
Já tinha pulado o muro

Zé Miranda

- Você vai pagar com juro
Se o que fala é mangação
Eu respeito o teu repente
A tua imaginação
Todos estão escutando
E as violas estão soando
Como luz na escuridão

Galo de Campina
 
- Eu falo de coração
Pois estamos empatados
Você cantou eu cantei
Sem ninguém cantar errado
Peço ao colega que cante
E vamos seguir adiante
Com o pinho afinado

* * *

Uma moça da platéia
Veio andando bem brejeira
Deixou o anel e um bilhete
Onde dizia certeira
“os corações já palpitam
Pra ouvir uma gemedeira”

Zé Miranda

- Cantei sextilha e mourão
Disse as coisas como entendo
Vou entrar na gemedeira
Me pediram eu entendo
O meu canto era alegre ai ai ui ui
Agora canto gemendo

Galo de Campina

- Zé Miranda eu compreendo
As dores do coração
A garota trouxe o tema
Lembrando sua paixão
Gemeremos noite a dentro ai ai ui ui
Prá curar sua emoção

Zé Miranda

- O fogo de uma paixão
Faz o coração doer
O corpo fica vibrando
O peito fica a tremer
E se a paixão avoa ai ai ui ui
O coração vai gemer

Galo de Campina

-Amar faz estremecer
Jovem velho e caduco
Pode ser rico ou pobre
Amarelo ou mameluco
Ou você tem um amor ai ai ui ui
Ou então fica maluco

Zé Miranda

- Já vi moça em Pernambuco
Por amor se maldizer
Sair louca desvairada
Procurando seu prazer
Ficou na praia zanzando ai ai ui ui
Sem saber o que fazer

Galo de Campina

- Sem saber o que dizer
Ao amor que ia partir
Uma garota ficou louca
E  danou-se a sorrir
Descambou ladeira abaixo ai ai ui ui
Foi no rio sucumbir

Zé Miranda

- Toinho na sua namorada
Sempre fazia  maltrato
A moça acabou morrendo
O pai viu o desacato
Deu-lhe um tiro a queima roupa ai ai ui ui
E hoje ainda paga o pato

Galo de Campina

- Eu vi um rapaz no Crato
Querendo se suicidar
Perguntei qual o motivo
Desse ato praticar
Respondeu que sua garota ai ai ui ui
Só vivia a lhe chifrar

Zé Miranda

- Cantador prá decifrar
A beleza da paixão
Tem que ter beleza imensa
Guardada no coração
Ou então o canto é fraco ai ai ui ui
Sem nenhuma emoção

Galo de Campina

- Quando falo em paixão
O meu canto fica triste
E se for na gemedeira
A tristeza aí persiste
Faço chorar todo mundo ai ai ui ui
Quem escuta não resiste

Zé Miranda

- Nossa gemedeira insiste
No seu tema ampliar
Tem muitas coisas no mundo
Agora vamos cantar
Pois todos que amam sofrem ai ai ui ui
Em todo tempo e lugar

Galo de Campina

- Chora para começar
O bolso do cantador
Que vara a noite cantando
Alegrando o expectador
A bandeja está vazia ai ai ui ui
Esperando um pagador

Zé Miranda

- A garganta sente o ardor
Da força que é do canto
Cantador tem energia
Suor alegria e pranto
Gemer para ter o pão ai ai ui ui
Só não geme quem é santo

Galo de Campina

- Geme os pobres pelos cantos
Trabalhando pro patrão
Gemendo o dia todo
Pega ferro com a mão
E o patrão no escritório ai ai ui ui
Vigiando seu cartão

Zé Miranda

- Chora aqui o meu irmão
Chora aqui o meu cunhado
Chora ali o agricultor
Quando vê o seu cercado
Invadido por grileiros ai ai ui ui
Da policia acobertados

Galo de Campina

- Um rapaz era empregado
Na terra dos cafezais
No caminho do trabalho
Se bateu com o capataz
Sem razão foi espancado ai ai ui ui
E o moço nunca mais

Zé Miranda

- O arrocho é demais
Parece uma brincadeira
No bolso de todo mundo
No cinema ou na feira
Quando geme todo mundo ai ai ui ui
Só se escuta a gemedeira

Galo de Campina

- Chega dá uma zoeira
Tanto choro se escutar
A minha revolta é grande
Quero aqui manifestar
Vamos se unir todo mundo ai ai ui ui
Prá esse choro acabar

Zé Miranda

- Vive a mãe a soluçar
A doença do ancião
Que por falta de comida
Morre de inanição
Vive um  drama todo dia ai ai ui ui
E não acha a solução

Galo de Campina

- Não existe coração
Que não veja crueldade
Quando o médico não atende
A mãe na maternidade
Mas o filho nasce e cresce ai ai ui ui
E um dia sabe a verdade

Zé Miranda

- Quando a força da maldade
Se acabar na ventania
Vou ouvir a passarada
Amanhã é outro dia
Se agora choro tristonho ai ai ui ui
Depois choro de alegria

Galo de Campina

- Choro aqui a fantasia
Desse menestrel que sonha
Todo dia toda hora
Sempre há quem se disponha
Quero terra pros sem terra  ai ai ui ui
Mesmo tendo quem se oponha

Zé Miranda

- Você disse aí que sonha
Então mude o andamento
Puxe ai um beira-mar
Mostre seu conhecimento
Acabe com a gemedeira ai ai ui ui
Dê margem ao pensamento

Galo de Campina

- Eu disse que sonho meu sonho é sentido
Procuro em mim como é que seria
Se eu fosse a noite eu bem que teria
Mistérios e espantos e loucos ruídos
Se eu fosse barulho doía os ouvidos
Se eu fosse um bilhete seria um tratado
Se eu fosse um cofre seria tampado
Se eu fosse um fosso seria profundo
Se eu fosse a sujeira seria imundo
Se eu fosse perfeito seria Eldorado

Zé Miranda

- Se eu fosse a chuva seria trovoada
Se eu fosse o vento seria ventania
Se eu fosse o cheiro seria maresia
Se eu fosse o frio seria geada
Se eu fosse vereda seria uma estrada
Se eu fosse o sopro seria vendaval
Se eu fosse o tempo seria temporal
Se eu fosse o mato seria um cerrado
Se eu fosse um clima seria temperado
Se eu fosse um índio seria canibal

Galo de Campina

- Se eu fosse uma pedra seria rochedo
Se eu fosse uma arma seria um dardo
Se eu fosse uma fera seria leopardo
Se eu fosse prisão seria degredo
Se eu fosse amargo seria azedo
Se eu fosse guerreiro seria um mouro
Se eu fosse um mosquito seria um besouro
Se eu fosse um coice seria patada
Se eu fosse um tiro seria rajada
Se eu fosse um arreio seria de couro

Zé Miranda

- Se eu fosse um peixe seria tubarão
Se eu fosse o mar seria maremoto
Se eu fosse a terra seria terremoto
Se eu fosse um veio seria riachão
Se eu fosse engano seria ilusão
Se eu fosse uma linha seria um novelo
Se eu fosse uma marca seria um selo
Se eu fosse areia seria areal
Se eu fosse uma dor seria visceral
Se eu fosse um sonho seria pesadelo

Galo de Campina

- Se eu fosse o fogo seria uma caldeira
Se eu fosse um choro seria torrente
Se eu fosse lezeiro seria demente
Se eu fosse palha seria uma esteira
Se eu fosse um garrancho seria ingazeira
Se eu fosse uma curva seria encruzilhada
Se eu fosse um galope seria cavalgada
Se eu fosse um susto seria um espanto
Se eu fosse um segredo seria um encanto
Se eu fosse um riso seria gargalhada

Zé Miranda

-Se eu fosse uma fonte seria um lago
Se eu fosse um martelo seria marreta
Se eu fosse o mal seria o capeta
Se eu fosse adivinho seria um mago
Se eu fosse um gole seria um trago
Se eu fosse uma casa seria um sobrado
Se eu fosse um ritmo seria agalopado
Se eu fosse um amparo seria salvação
Se eu fosse maldade seria perdição
Se eu fosse um grito seria um brado

Galo de Campina

-Se eu fosse um ruído seria um estrondo
Se eu fosse um estalo seria um pipoco
Se eu fosse um mestiço seria caboclo
Se eu fosse um gordo seria redondo
Se eu fosse um inseto seria maribondo
Se eu fosse uma crença seria doutrina
Se eu fosse uma ave seria rapina
Se eu fosse tocaia seria arapuca
Se eu fosse uma cuia seria cumbuca
Se eu fosse um raio seria silibrina

Zé Miranda

-Se eu fosse uma corda seria corrente
Se eu fosse uma aguada seria oceano
Se eu fosse andarilho seria cigano
Se eu fosse um príncipe seria valente
Se eu fosse romeiro seria penitente
Se eu fosse pólvora seria espoleta
Se eu fosse pimenta seria malagueta
Se eu fosse um sopro seria um tufão
Se eu fosse um bravo seria Sansão
Se eu fosse um astro seria um cometa

Galo de Campina

-Se eu fosse uma briga seria um duelo
Se eu fosse um deus seria o Soberano
Se eu fosse uma falha seria um engano
Se eu fosse um escritor seria Pirandello
Se eu fosse uma pistola seria paralelo
Se eu fosse uma velha seria uma megera
Se eu fosse uma lenda seria quimera
Se eu fosse erva seria maconha
Se eu fosse um dos pares seria Guy Borgonha
Se eu fosse uma furna seria cratera

Zé Miranda

-Se eu fosse raiz seria a cura
Se eu fosse o mal seria raiz
Se eu fosse tumor seria panariz
Se eu fosse um doce seria rapadura
Se eu fosse uma capa seria armadura
Se eu fosse uma luz seria boreal
Se eu fosse uma fibra seria sisal
Se eu fosse grande seria Alexandre
Se eu fosse uma bica seria de flandre
Se eu fosse um golpe seria mortal

Galo de Campina

- Se eu fosse a terra seria o universo
Se eu fosse um herói seria Teseu
Se eu fosse descrente seria ateu
Se eu fosse o contrario seria inverso
Mas vivo do canto do pinho do verso
Embora sofrendo sou calmo e ordeiro
Mas quando me irrito viro desordeiro
E faço o que quero pelo mundo afora
Se tudo que penso eu fosse agora
Seria talvez o maior violeiro

Zé Miranda

- Cantamos sentindo o sonho que passa
Na mão do poeta o louco do pinho
Escuto penso sonho adivinho
Reparo a tristeza que cobre a massa
Confesso contudo o terror da desgraça
Tocando viola amenizo essa dor
Pois canto com garra um canto de amor
Das coisas que vejo que penso que sinto
Meu canto sai forte sou franco não minto
E muito me alegro em ser cantador

Galo de Campina

- O dia é claro a noite é escura
O dia ficou prá luz que irradia
A noite ficou para a poesia
Brotar do juízo de forma segura
Com a sala repleta é uma gostosura
Cantar beira-mar galope e martelo
Falando em princesas rainha castelo
Eu penso comigo é um pesadelo
Invento historias destrincho novelo
E pedindo ao parceiro pra entrar no duelo

Zé Miranda

- Falou em duelo Miranda não erra
Sou todo ouvidos para lhe seguir
A noite em breve daqui vai sumir
O sol vai fugir por detrás de uma serra
Tu fala em duelo igual uma guerra
Que dois repentistas estão a travar
A brisa da noite bafeja a soprar
Levando meu verso minha despedida
Eu mudo meu verso e te espero em seguida
No fim do galope que acaba no mar

Galo de Campina

- Duas vezes eu te enfrento
Quatro vezes te machuco
Seis vezes  te cutuco
Oito vezes te rebento
Nas dez vezes teu intento
Doze vezes é pra depois
Quatorze cuias de arroz
Quinze vezes se comprove
Um três cinco sete nove
Onze treze volto a dois

Zé Miranda

- Duas vezes tu apanhas
Quatro vezes não aprende
Seis vezes se arrepende
Oito vezes  te assanhas
Dez vezes tu não ganhas
Doze vezes se indispôs
Quatorze assentos birôs
Com o quinze que se comove
Um três cinco sete nove
Onze treze volto a dois

Galo de Campina

- Duas vezes viro santo
Quatro vezes sou ateu
Seis vezes venci Teseu
Oito vezes te espanto
Dez vezes escuto pranto
Doze vezes quem propôs
Quatorze juntas de bois
Quinze vezes se reprove
Um três cinco sete nove
Onze treze volto a dois
 
Zé Miranda

- Duas vezes eu repito
Quatro vezes asseguro
Seis veze  jogo duro
Oito vezes acredito
Dez vezes escuto o apito
Doze vezes diz quem sois
Quatorze forças impôs
Quinze dias que não chove
Um três cinco sete nove
Onze treze volto a dois

Galo de Campina

- Um carro desenfreado
Dois poetas bons de mote
Três cavalos bons de trote
Quatro loucos açulados
Cinco monstros acuados
Seis fuzis já detonando
Sete olhos procurando
Oito cabras te seguindo
Nove mãos te perseguindo
Acabam te encontrando

Zé Miranda

- Um estouro na boiada
Dois faróis a iluminar
Três ladrões prá te  assaltar
Quatro índios na cilada
Cinco cortes de espada
Seis moleques endiabrados
Sete sonhos assombrados
Oito gritos lá de fora
Nove espantos de caipora
Nos sertões enfeitiçados

Galo de Campina

- Um trovão faz um estrondo
Dois relâmpagos cortam o ar
Três pedras a desabar
Quatro tiranos te impondo
Cinco loucos te propondo
Seis vezes tu diz eu morro
Sete vezes quer socorro
Oito vezes pede ajuda
Nove vezes não se iluda
Tá no mato sem cachorro

Zé Miranda

- Um cigano assanhado
Dois marujos assaltantes
Três maridos de gestantes
Quatro vezes vai armado
Cinco vezes avisado
Seis vezes já abusou
Sete vezes tu ousou
Oito vezes faz pirraça
Nove vezes achou graça
Tu vai preso eu não vou

Galo de Campina

- O abc vou começando
Principiando pelo A
Arigó, Arcano, Alá
Baculejo, Batiplano
Cacareco, Capistrano
Dor de dente, derradeira
Esquadrilha estradeira
Ferreiro, ferro, foiçada
Guerreiro guerra gritada
Herege ,Herdade, Herdeira
 
Zé Miranda

- Almanaque, Afulimado
Bate-boca, bigodudo
Capivara , Cabeçudo
Desempate, desligado
Elixir, Elauterado
Figurinha, falecida
Garjaú, grito, guarida
Holulante, Hebreu, Horácio
Indigente, Ima, Inácio
Jumento, Jegue,  Jazigo

Galo de Campina

- Arengueiro, Assanhado
Babaquara, Brasonado
Curupira, Camuflado
Dermolatra, destruidor
Esponente, Espantador
Farofeiro, Fanfarrão
Gangrena, Garfo, Galvão
Herbicida, Hierofonte
Incauto, Ignorante
Jatatura Jambobão

Zé Miranda

- Araboca, Arruaceiro
Barrancudo, Barracento
Caipora, Catavento
Dedo duro do dinheiro
Econdroma Embusteiro
Falastrão faz Farofada
Gabolice, Galhofada
Heresia, heteu, hiato
Invejoso, Indócil, Ingrato
Jacaré, Jura, Jangada
 
Galo de Campina

- Com acordes e arpejos da viola
Que me guia na rota sideral
Nessa noite que enche meu bornal
É a ciência me leva nessa escola
Desafio com o pinho e a cachola
Quem me siga travando em cantoria
Pois do céu ao inferno noite dia
Eu embalo improviso e mostro garra
Cantador garganteio não faz farra
Leva pisa sem choro e agonia

Zé Miranda

- Pabulagem nenhuma faz magia
Não assusta nem me deixa impressionado
Minha vida é um rio transbordado
Sai canção que ao sertão causa alegria
Meu cantar não respeita hierarquia
Desintegro cantando meu baião
Mesmo os bichos ocultos do sertão
Saem do mato para ouvir minha toada
Se você insistir nesta empreitada
Perde o ritmo a métrica o rojão

Galo de Campina

- Não tem metro que meça essa canção
Nem aboio prá conter a ira do gado
Não tem louco maluco ou aloprado
Que no canto magoe meu coração
Desconheço quem enfrenta com a mão
Um garrote na hora do estouro
Dê-lhe um murro derrube tire o couro
Coma a carne, tire o chifre, faça pente
Isso eu faço cantando meu repente
Meu cantar vale mais que um tesouro

Zé Miranda
 
- O meu canto parece com um touro
No curral pressentindo o fio da morte
Chame Deus prá que venha lhe dar sorte
Quem lhe avisa tem sangue bravo e mouro
Hoje aqui ficaras como um besouro
Esmagado nos pés de uma criança
Cantador do teu tipo não se cansa
De apanhar e sofrer com o meu grito
Toda vez que te escuto me irrito
É melhor perder logo a esperança

Galo de Campina

- Já lutei com os tiranos de Bragança
E ele vendo seu chefe fraquejar
Com canhões e fuzis prá me atirar
Arrancaram depressa a minha lança
Isso aí provocou minha vingança
Fiz moleque voar pelo telhado
Dei um soco na cara de um soldado
Que a cabeça voou para o infinito
Toquei fogo na casa do proscrito
Minha fama cresceu por todo lado

Zé Miranda

- Acabei com o trono do Micado
Do porão fiz sair gladiadores
Que sofriam na cela dissabores
Que o rei os havia condenado
Nesse dia o muro do sobrado
Desabou transformando-se em ruína
Com uma corda do alto da colina
Derrubei o portão de ouro puro
Destruí paliçada templo e muro
Onde os pobres sofriam a chacina

Galo de Campina

- Fiz cavalo empinar a sua crina
Fiz ladrão se queixar que foi roubado
Fiz valente sair destabocado
Se escondendo na saia da menina
Já fui padre já tive concubina
Nem o Papa ousou me maldizer
Vendo isto tu deves compreender
Que o meu grito é maior que uma trombada
Não tem raça amarela ou descorada
Que se atreva a tentar me desfazer

Zé Miranda

- Fiz serpente no mato se esconder
Batalhão de soldado recuar
Quando viram suas balas eu pegar
Ou então com a testa eu rebater
O capitão vendo a tropa se render
Escalou dois gigantes filhos seus
Entreguei todos dois para os plebeus
Que já vinham em louca disparada
Me ajudaram a dar cabo da empreitada
Construí novo trono pros caldeus

Galo de Campina

- Na batalha de nazistas e judeus
Fui chamado a ajudar Jerusalém
Já na estrada chegando em Belém
Uma tropa nazista me prendeu
Um sargento levou-me ao chefe seu
Me bateram até que eu me irritei
Com o berro medonho que eu dei
Os nazistas voaram da janela
Joguei todos no fundo de uma cela
E a cidade no fim eu libertei

Zé Miranda

- Já lutei contra a ira de um rei
Conhecido na Geórgia como Arthur
Já venci o valente Wandersur
Até o monstro Macobeba eu degolei
A seguir pela Índias caminhei
Combati o gigante Otaviano
Me levaram a força por engano
E eu peguei o carrasco distraído
Dei-lhe um murro feroz no pé do ouvido
E fugi com a mulher do soberano

Galo de Campina

- Pela ordem cruel de um tirano
Fui jogado na arena prá lutar
Com dez onças treinadas pra matar
Devorando ligeiro o ser humano
Mas as feras  do imperador romano
Com meus socos tombaram na arena
O tirano olhando aquela cena
Disparou a gritar apavorado
Foi cair bem no meio de um cercado
E acabou-se nos dentes de uma hiena

Zé Miranda

- A explosão de uma bomba é pequena
Se me lanço no meio de uma guerra
Avalanche despenca de uma serra
E quem vê na TV chega dá pena
Quebro braços e pernas dou gangrena
Desafio de uma vez dez mil soldados
Dessas balas de canhões estou abusado
Só meu canto faz macaco pedir ajuda
Treme o sol treme a terra e o vento muda
Quando eu canto um martelo agalopado

* * *

Neste momento o sol
Surgiu brilhando na sala
Toda a platéia aplaudiu
Teve quem perdeu a fala
A festa estava tão boa
Que dava pena encerrá-la
Todo mundo no recinto
Dava viva aos violeiros
O mugido de um garrote
Ecoava os tabuleiros
Tava amanhecendo o dia
Com os aboios dos vaqueiros

A bandeja tava cheia
O povo todo feliz
A cantoria ficou
Do jeito que o povo quis
O grito era uníssono
De todos pedindo bis

Seu Miguel radiante
Daquela bela noitada
Veio dar naquela  hora
A cantoria como encerrada
E convidou os presentes
Pra tomar uma coalhada

Zé Miranda disse Galo
Voltamos a empatar
Da próxima não escapas
Na certa vou te entalar
Aí o Galo fica mudo
E jamais volta a cantar

O Galo abraçando Zé
Disse segura esse pinho
Guarda bem esse trocado
Siga bem no seu caminho
Se passar na minha rua
Pise bem devagarzinho

- Leitores sei que não tarda
Outra peleja contar
Quem gostou que fique atento
Prá outro livro comprar
Mas só escrevo a próxima
Quando essa aqui esgotar.

Compartilhe Compartilhe

0 Comentários

Deixe o seu comentário!


© 2007 Besta Fubana | Uma gazeta da bixiga lixa