Quem assiste aos vídeos com os depoimentos de Emílio Odebrecht pode acreditar que quem está falando não é um marechal do imenso exército dos corruptos que consumou a maior roubalheira de todos os tempos, mas uma sumidade em assuntos brasileiros. Falante, risonho, ele não depõe: dá aulas sobre a alta ladroagem, interrompidas só de vez em quando por perguntas em tom respeitoso da autoridade judicial. O responsável pelos questionamentos nem aparece na tela, que o mestre divide com o advogado cuja expressão apalermada é acentuada pela franja Febem.

Num determinado momento, o chefão da usina de maracutaias, velhacarias, vigarices e bandalheiras ensina que a ladroagem bilionária nada tem de novidade. “As coisas são assim há trinta anos”, reescreve a história o pai e mentor de Marcelo Odebrecht. (Se fosse verdade, a Petrobras teria falido em 1986). Noutro vídeo, proclama-se vítima de um tipo de burocracia que só pode ser derrotado por montanhas de dólares. (Conversa de 171: o grande assalto foi concebido em 2003, no primeiro governo Lula, e sangrou os cofres públicos até 2014, quando a Operação Lava Jato começou a ofensiva contra os gatunos da classe executiva).

Numa terceira lição, Emílio garante que a imprensa não tem o direito de surpreender-se com a ultrapassagem de todos os limites da abjeção. “Os jornalistas sempre souberam do que acontecia”, acusa. (Talvez soubessem disso os que a Odebrecht arrendou, alugou ou comprou. Os decentes nem de longe imaginavam que, entre 2006 e 2014, a empreiteira gastou em propinas US$ 3,37 bilhões. (Dólares, não reais, frisa a coluna de Carlos Brickmann nesta quarta-feira. “Até 2008, a Odebrecht gastava em propinas, agrados, pixulecos, mimos, 0,5% de sua receita anual”, detalha Brickmann. “A partir daí, o volume aumentou muito. Em 2012, o custo do escândalo já era de 1,7% da receita – e a receita também tinha aumentado, graças ao fermento da propina”.

Alguém precisava lembrar ao bandido arrogante o que ele de fato é: um quadrilheiro de alta patente que escapou da cadeia por ter concordado em revelar minuciosamente as atividades criminosas em que se meteu. Foi o que começou a descobrir durante a conversa com o procurador Sérgio Bruno, parcialmente reproduzida no vídeo abaixo. “Deixa de historinha”, cortou o homem da lei quando o desenvolto fora da lei tentava transformar uma audiência judicial em outra conversa de botequim. A repreensão foi oportuníssima. Mas Emílio Odebrecht anda implorando por castigos bem mais severos.

As revelações que tem feito ajudam a Justiça a cumprir o seu papel. Mas não transformam um culpado em inocente. O dono da empreiteira que apodreceu será sempre lembrado como um titular absoluto da seleção brasileira dos corruptos – esse timaço que encontrou em Lula, o “Amigo”, o inesquecível camisa 10.

4 Comentários

  1. Nelson disse:

    Lei de Migração
    Se eu fosse um cidadão brasileiro que merecesse o respeito dos Congressistas do País, gostaria imensamente que me explicassem porquê em um momento tão perigoso e explosivo como estamos passando com ladroeiras em todos os setores, desemprego em massa, recessão e Estados falidos, Congressistas que admiro e que também são da confiança de milhões de brasileiros se apressaram em aprovar uma lei de migração tão abrangente como se fossemos a nação mais rica e segura do planeta.
    Nações que cometeram esse erro com economia em plena expansão estão revisando seu processo “bondoso” de migração, pois sentiram na carne – explodida, esfaqueadas, metralhadas, atropeladas e etc, – as consequência de suas bondades estúpidas.
    Quanto aos políticos que votaram essa lei, devem ter seus nomes anotados e expulsos da vida política.
    A cidadania e segurança dos Brasileiros está em comprometida!

  2. Quincas disse:

    Como sempre, muito bom..

  3. CARLOS FRANCISCO DE FARIAS disse:

    E a cara sem vergonha do advogado!

  4. Monsenhor Anhanguera disse:

    Não vou defender corruptos nem corruptores, mas quem já tentou oficializar a dispensa de uma doméstica no eSocial até acredita na frase de que é melhor dar dinheiro do que preencher pela centésima vez o próprio cpf, mais senha, mais código que comprove que pagou a in-bosta de renda, e não conseguir liberar a ex-empregada para que receba seu fundo de garantia.

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