As incontáveis abjeções produzidas pela usina fora-da-lei que funcionou no Planalto por mais de 13 anos não cabem no noticiário jornalístico, tampouco na memória dos brasileiros. O escândalo da vez não fica na vitrine mais que algumas horas. É muita bandalheira para pouco espaço. É muita pauta para pouco repórter. É delinquência demais para um país só. É tanta obscenidade que, nesta segunda década do século 21, o que houve na primeira parece anterior ao Velho Testamento. Isso ajuda a explicar a curta escala nas manchetes feitas pelo sumiço das câmeras de vigilância do Planalto, assombro divulgado em entrevista à revista Veja pelo general Sérgio Etchegoyen, chefe do Gabinete de Segurança Institucional da Presidência da República.

A remoção dos aparelhos ocorreu no segundo semestre de 2009, informou Etchegoyen. Se tivesse consultado os jornais da época, teria descoberto que o motivo da remoção dos aparelhos teve (e tem) nome e sobrenome: Lina Vieira, secretária da Receita Federal afastada do cargo em agosto daquele ano. Entre a história protagonizada por ela e a entrevista do chefe do GSI passaram-se apenas sete anos – e no entanto o resgate do caso parece coisa de arqueologista.

Aos fatos.

Em 9 de agosto de 2009, numa entrevista à Folha, Lina Vieira fez revelações que escancaram a causa da sua substituição. Fora demitida por honestidade.

Estava marcada para morrer desde o fim de 2008, quando fez de conta que não entendeu a ordem transmitida por Dilma Rousseff, então chefe da Casa Civil, numa reunião clandestina ocorrida no Planalto: “agilizar”a auditoria em curso nas empresas da família do ex-presidente José Sarney. Em linguagem de gente, deveria encerrar o quanto antes as investigações, engavetar a encrenca e deixar em paz os poderosos pilantras. Dilma poderia alegar que não dissera o que disse. Como serial killers da verdade primeiro mentem para só depois pensarem em álibis menos mambembes, resolveu afirmar que a conversa nunca existiu.

Lina pulverizou a opção pelo cinismo com uma saraivada de minúcias contundentes. Contou que o convite para a reunião foi feito pessoalmente por Erenice Guerra, braço-direito, melhor amiga de Dilma e gatuna ainda sem ficha policial. Como confirmou Iraneth Weiler, chefe de gabinete da secretária da Receita, Erenice apareceu por lá para combinar a data e o horário da reunião. Também queria deixar claro que, por ser sigiloso, o encontro não deveria constar das agendas oficiais. Em depoimento no Senado, descreveu a cena do crime, detalhou o figurino usado pela protetora da Famiglia Sarney e reproduziu o diálogo constrangedor.

“Foi uma conversa muito rápida, não durou dez minutos”, resumiu. “Falamos sobre algumas amenidades e, então, Dilma me perguntou se eu podia agilizar a fiscalização do filho de Sarney”. No fecho do depoimento, repetiu a frase com que o abrira: “A mentira não faz parte da minha biografia”. As informações que fornecera permitiriam a qualquer investigador de chanchada esclarecer a delinquência em poucas horas. Mas Franklin Martins, ministro da Propaganda de Lula, achou pouco. “O ônus da prova cabe ao acusador”, declamou. “Cadê as provas?”.

Estão no Palácio do Planalto, reiterou Lina. Como dissera durante a inquisição dos senadores, ela chegou sozinha para o encontro noturno, teve a placa do carro anotada ao entrar pela garagem, passou pelo detector de metais, deixou o nome na portaria, subiu pelo elevador, esperou na sala ao lado de duas pessoas e caminhou pelo andar. “É só requisitar as filmagens”, sugeriu. “Não sou invisível. Não sou fantasma”. Logo se soube que, no sistema de segurança instalado no coração do poder, todo mundo virava fantasma um mês depois de capturada por alguma câmera. Numa espantosa nota oficial, o bando fantasiado de governo confessou que as imagens eram guardadas por 31 dias.

Haviam sido destruídas, portanto, as cenas do entra-e-sai de outubro e novembro de 2008, entre as quais as que documentaram as andanças de Lina Vieira. E os registros na garagem? Esses nunca existiram. Como o serviço de segurança à brasileira confia na palavra dos visitantes, tanto as placas dos carros oficiais quanto a identidade de quem zanza por ali não são registradas em papéis ou computadores. O porteiro limita-se a perguntar ao motorista se há uma autoridade a bordo. Assim, o governo não tinha como atender às interpelações de parlamentares oposicionistas.

Conversa de 171.

Acobertados pela mentira, os sherloques a serviço da bandidagem destruíram as gravações. A ex-presidente fantasiada de mulher honrada enquadrou-se, sempre em parceria com Lula, nos crimes de ocultação de provas e obstrução da Justiça. As câmeras foram escondidas em lugar incerto e não sabido. Nunca mais deram as caras no palácio. Nos sete anos seguintes, os quadrilheiros com direito a foro privilegiado agiram com a desenvoltura de quem se livrara até daquele simulacro de esquema de vigilância. Deu no que deu.

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5 Comentários

  1. Arthur Tavares disse:

    Só mesmo meliantes e criminosos tem este tipo de ação.
    Depois é só manter a cara de pau na mentira e vai ser minha palavra contra a sua…….
    Mas vai ser muito engraçado……
    O criminoso mor vai ser que nem o Al Caponne….. Pego pelo ” Meu Triplex minha vida” e “Meu sitio minha outra vida”.

  2. violante pimentel disse:

    Parabéns para a grande brasileira Lina Vieira, que não se deixou corromper pela politicalha que empestava o Governo Federal, quando foi nomeada Secretária da Receita Federal do Brasil. Foi a primeira mulher a ocupar esse importante cargo. Tomou posse em 31 de julho de 2008 e foi exonerada oficialmente em 17 de julho de 2009, tendo nele permanecido por apenas onze meses.

    Lina Maria Vieira (Belo Horizonte, 5 de dezembro de 1950) é advogada e Auditora Fiscal da Receita Federal, radicada no Rio Grande do Norte, onde exerceu, por duas vezes, o cargo de Secretária da Fazenda.
    Aplausos para Lina Vieira, exemplo de retidão, que representa um orgulho para o Estado do Rio Grande do Norte e para todo o Brasil!

  3. Jorge Macedo - Recife - PE disse:

    Minha amiga Violante Pimentel: A Sra. Lina Vieira é a genitora do famoso humorista Mução. Se tiver alguma dúvida coloque no GOOGLE ( seu Guga como denomina o nosso editor Luiz Berto ) e coloque: Lina Vieira e Mução e confirme. Abraços

    • violante pimentel disse:

      Obrigada, amigo Jorge Macedo! O engraçado é que o que ela tem de séria, Mução (Rodrigo Vieira Emerenciano) tem de brincalhão…rsrs

  4. CARLOS FRANCISCO DE FARIAS disse:

    Foda é você ser demitido por ser honesto!Isso é um espanto.A mentira,para eles,sempre foi seu ponto forte.Afinal,fizeram o diabo pra ganhar as eleições.Como sabemos,o diabo é o pai da mentira.

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