PROMOÇÕES E EVENTOS

LIVRO DO COLUNISTA FUBÂNICO XICO BIZERRA

Dia desses andei relendo esse livrinho e me encantei, de novo. 30 conversas interessantes com gente do Nordeste, tipo Dom Hélder, Manoel Bandeira, Luiz Gonzaga, João Cabral de Melo Neto, Ariano Suassuna, Jackson do Pandeiro, Sivuca, dentre outros.

Como se não bastasse tem prefácio e apresentações de Dr. José Paulo Cavalcanti Filho, Maciel Melo, Luiz Berto e Paulo Rocha.

Gostei e recomendo.

É só pedir pelo imeio xicobizerra@gmail.com – que eu entrego em todo o Brasil.

E custa só R$ 46,00, frete incluso.

MAURINO JÚNIOR - SEM CRÔNICAS

NINGUÉM É DONO DA MINHA CONSCIÊNCIA

Há uma coisa que aprendi muito cedo, talvez antes mesmo de compreender inteiramente o significado da palavra: a minha vida me pertence. A mim. Não aos outros. Não à multidão. Não aos costumes. Não aos tribunais da opinião pública. Não aos salvadores profissionais. Não aos profetas de ocasião. Não aos donos da verdade. Não aos homens que, investidos de alguma autoridade que ninguém lhes concedeu, imaginam possuir procuração sobre a existência alheia. Minha vida é minha responsabilidade. Minhas escolhas são minhas. E meus princípios não precisam de um dono externo. Eis uma afirmação aparentemente singela, mas que, quando levada às últimas consequências, talvez seja uma das coisas mais subversivas que um ser humano possa dizer. Porque há gente que não suporta a liberdade dos outros.

Há indivíduos que toleram perfeitamente que você respire, desde que respire segundo a cartilha deles. Aceitam sua existência, desde que você pense como eles, vote como eles, ame como eles, trabalhe como eles, eduque seus filhos como eles, conduza sua família como eles, fracasse como eles e, sobretudo, não ouse construir uma consciência que dispense a aprovação deles. É aí que começa a tirania cotidiana. Não necessariamente aquela que chega de farda, decreto ou algema. Às vezes ela chega sorrindo. Vem disfarçada de conselho. De preocupação. De amizade. De experiência. De “eu sei o que é melhor para você”. E há uma frase particularmente perigosa escondida nesse repertório: “Se eu estivesse no seu lugar…” Não está. Nunca esteve. Não conhece exatamente o peso das suas noites, a anatomia dos seus medos, a extensão das suas renúncias, as batalhas que travou em silêncio, os erros que ainda lhe atravessam a memória, nem as circunstâncias que o obrigaram a escolher entre alternativas igualmente imperfeitas. Então, talvez fosse conveniente certa humildade antes de pretender administrar a existência de outra pessoa. Há uma arrogância quase metafísica em imaginar-se proprietário do destino alheio. Como se o outro fosse uma propriedade intelectual. Como se sua vida fosse um território sem soberania.

Como se pudesse haver um ser humano suficientemente iluminado para receber o privilégio de decidir pelo restante da humanidade. Não pode. Ninguém recebeu essa procuração. E eu tampouco concedi a minha. Isso não significa que eu seja infalível. Muito pelo contrário. Já errei. E, quando errei, o erro foi meu. Não atribuo meus fracassos às estrelas, ao governo, ao vizinho, à infância, ao azar, à sociedade, à lua, ao capitalismo, ao destino ou a qualquer outra entidade convenientemente abstrata que possa servir de depositária daquilo que não quero assumir. Circunstâncias existem. Injustiças existem. Acasos existem. Há coisas que nos atingem sem que tenhamos solicitado sua chegada. Mas existe uma fronteira que considero inegociável: o que faço com aquilo que me aconteceu continua sendo responsabilidade minha. Essa responsabilidade pode ser pesada. Às vezes, é brutal. Mas também é libertadora. Porque, no instante em que compreendo que minhas escolhas me pertencem, descubro algo extraordinário: ninguém pode viver a minha vida em meu lugar. Podem aconselhar. Podem criticar. Podem tentar convencer. Podem até abandonar-me por eu não obedecer àquilo que esperavam de mim. Mas decidir? Decidir é comigo.

E aqui talvez resida uma das maiores aberrações do nosso tempo: pessoas que exigem liberdade absoluta para si mesmas enquanto reivindicam autoridade moral sobre os outros. Querem autonomia para suas próprias escolhas e obediência para as alheias. Querem ser respeitadas em suas convicções, mas tratam a convicção divergente como heresia. Querem que ninguém interfira em suas vidas, enquanto passam o dia arquitetando maneiras de interferir na vida dos demais. É uma espécie peculiar de hipocrisia: liberdade em primeira pessoa; tirania na segunda. Não me interessa. Não quero ser senhor da consciência de ninguém. E não admito que ninguém seja senhor da minha. Tenho princípios. Não porque alguém os tenha imposto. Não porque estejam estampados numa cartilha distribuída aos homens como manual universal de comportamento. Tenho-os porque, ao longo da existência, compreendi — às vezes pela razão, às vezes pela dor, às vezes pelo erro — aquilo que considero digno de preservar. E, se algum dia eu trair esses princípios, não procurarei um culpado para dividir comigo a autoria. A escolha será minha. É precisamente aí que termina a desculpa e começa o caráter. Porque caráter não é aquilo que proclamamos quando tudo está em ordem. Caráter é aquilo que permanece quando seria conveniente abandoná-lo. É escolher a integridade quando a desonestidade parece mais lucrativa. É sustentar a palavra quando quebrá-la seria mais confortável. É reconhecer o próprio erro quando seria muito mais fácil fabricar um culpado. É dizer “eu fiz” quando todos ao redor estão procurando alguém para apontar. E talvez seja por isso que tanta gente prefira a tutela. Ser responsável assusta. A liberdade é sedutora até o momento em que percebemos que ela vem acompanhada de uma conta.

Toda liberdade verdadeira cobra responsabilidade. É muito mais confortável entregar a própria consciência a um líder, a uma ideologia, a uma religião, a um guru, a uma multidão, a um partido, a uma celebridade ou a qualquer outra autoridade providencial. Assim, se tudo der certo, a glória é compartilhada. Se tudo der errado, a culpa também. Eu prefiro o risco da soberania. Prefiro errar sendo dono das minhas decisões a acertar obedecendo cegamente às decisões de outro. Porque uma existência terceirizada pode até ser longa, confortável e socialmente aplaudida. Mas não é verdadeiramente sua. E há uma coisa que ninguém poderá fazer por mim: assumir a autoria daquilo que sou. Podem tentar me convencer de que sabem quem devo ser. Podem tentar me enquadrar. Podem interpretar minhas escolhas. Podem julgá-las. Podem até condená-las. Mas há uma porta à qual não concederei a ninguém a chave: a porta da minha consciência. Ela não está à venda. Não está aberta à licitação. Não pertence à maioria. Não pertence à minoria. Não pertence ao Estado. Não pertence à família. Não pertence aos amigos. Não pertence aos inimigos. E muito menos pertence à multidão. Pertence a mim.

E se isso incomodar alguém, talvez seja uma oportunidade extraordinária para essa pessoa perguntar a si mesma: por que a liberdade do outro lhe causa tanto desconforto? Talvez a resposta seja mais reveladora do que ela gostaria. Porque, no fundo, quem precisa desesperadamente controlar a vida alheia talvez esteja tentando fugir da própria. Eu, não. Tenho uma vida para viver. Erros para assumir. Escolhas para fazer. Consequências para suportar. Princípios para preservar. E um único proprietário autorizado a responder por tudo isso. Eu. O resto é opinião.

E opinião, por mais estridente que seja, continua sendo apenas opinião.

Minha vida é minha responsabilidade.

Minhas escolhas são minhas.

E meus princípios não precisam de um dono externo.

Não é arrogância.

É soberania.

E talvez a forma mais elegante de dizer ao mundo: “Você pode caminhar ao meu lado. Pode me aconselhar. Pode discordar de mim. Pode até me abandonar. Mas não tente viver no meu lugar. Esta vida já tem dono.”

DEU NO JORNAL

NO MARANHÃO

O ministro do STF Flávio Dino derrubou a decisão de André Mendonça, que havia afastado dirigentes da Polícia Federal, alegando que o autor da ação, o Partido Novo, não teria legitimidade para requerer cautelares de natureza penal.

O mesmo Dino, porém, assumiu a relatoria de processo contra adversários, para barrar indicações ao Tribunal de Contas do Maranhão.

A ação dos aliados do partido Solidariedade ganhou o reforço de uma advogada mineira, que caiu de paraquedas.

Dino barrou a advogada na ação, mas usou suas alegações, de pessoa física na ADI do Solidariedade, para abrir um inquérito na Polícia Federal.

Na sequência, afastou o presidente do TCE-MA, Daniel Brandão, que é sobrinho do governador Carlos Brandão. Ambos são seus adversários.

Os processos para preenchimento de duas vagas de conselheiro do TCE-MA permanecem suspensos há quase três anos.

* * *

Isso é um retrato perfeito deste nosso país surrealista.

Tudo dentro dos conformes.

Normal, normal, normal.

DEU NO X

DEU NO JORNAL

ANULAÇÃO DE LIMINARES

Editorial Gazeta do Povo

O presidente do Supremo Tribunal Federal, Edson Fachin, derrubou na tarde desta quarta-feira as duas liminares que tratavam do afastamento do diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, e do diretor de Inteligência Policial, Leandro Almada. Na terça-feira, o ministro André Mendonça havia afastado os dois diretores, mas na manhã desta quarta seu colega Flávio Dino reconduziu ambos aos seus cargos, em uma decisão que combinava truques processuais, autoritarismo e pobreza de argumentação. Fachin ainda decidiu que o pedido de afastamento feito pelo partido Novo será analisado por ele mesmo, depois de ouvir os argumentos de Mendonça e Rodrigues.

Fachin aplicou o artigo 4.º da Lei 8.437/1992, que permite “ao presidente do tribunal, ao qual couber o conhecimento do respectivo recurso, suspender, em despacho fundamentado, a execução da liminar”, desde que em circunstâncias muito específicas, incluindo (mas não se limitando a) “caso de manifesto interesse público ou de flagrante ilegitimidade, e para evitar grave lesão à ordem, à saúde, à segurança e à economia públicas”. E citou, como precedentes, duas liminares de Marco Aurélio Mello suspensas por presidentes do STF: Dias Toffoli, em 2018, reverteu a soltura de todos os presos condenados em segunda instância, mas sem o trânsito em julgado; e, em 2020, Luiz Fux restabeleceu a prisão preventiva de André do Rap, líder do PCC (embora já fosse tarde demais, pois o criminoso havia fugido).

Do ponto de vista puramente jurídico, Fachin optou por uma solução possível – embora não a melhor, como veremos – diante da urgência do caso. Assim como afirmamos neste espaço, tratando de Alexandre de Moraes e Mendonça, não há equiparação moral possível também neste caso. Mendonça tomou uma decisão da qual se pode até discordar, mas que estava dentro de sua competência como relator. Dino, por sua vez, atropelou totalmente o colega e o próprio Fachin, que já havia encaminhado o caso com um prazo para a manifestação de Mendonça; fez isso graças a um truque processual que permitiu a Dino analisar o pedido de Rodrigues, e ainda tratou qualquer eventual decisão contrária à sua como “ilícito sujeito às consequências previstas no ordenamento jurídico” – de forma bastante hipócrita, pois ele mesmo estava revisando decisões de colegas.

Não se tratava, portanto, de simples divergência ou de um mero “quadro de conflitos e sobreposições processuais que, por si só, configuram lesão à ordem pública e à integridade deste tribunal”, como escreveu Fachin em sua decisão. Havia um ministro que afastou um diretor da PF, e um outro ministro que fez terra arrasada da ordem jurídica nacional. A única atitude totalmente acertada, por parte de Fachin, seria anular apenas a liminar de Dino, deixar que o afastamento decretado por Mendonça continuasse a vigorar, e marcar a análise do plenário ou deixar prevalecer o entendimento da Segunda Turma, onde já havia maioria para seguir o relator. No entanto, como o presidente do STF só pode suspender liminares se provocado, e a única provocação (proveniente da Advocacia-Geral da União) se referia à liminar de Mendonça, e não à de Dino, a suspensão de ambas as liminares se tornou uma solução compreensível (mas não correta), diante de todas as circunstâncias.

O grande problema, neste caso, é que o apaziguamento e as soluções de compromisso jamais resolvem definitivamente os problemas. Flávio Dino agiu como se fosse dono do órgão, atropelando um processo que já tinha seu encaminhamento regular e portando-se como a autoridade suprema no que diz respeito ao status de Andrei Rodrigues na diretoria-geral da PF. A interferência do mais novato dos membros do Supremo é a prova cabal de que há uma ala de ministros dedicados única e exclusivamente à autoproteção e à blindagem mútua, e de que esse grupo quer tomar o tribunal de assalto, passando por cima de tudo e de todos; eles não querem ser criticados, não querem ser questionados, e não querem ser investigados, independentemente do que façam ou do que digam.

Por esse motivo, é preciso também destacar uma outra decisão tomada por Fachin nesta quarta-feira: a de retirar das mãos de Alexandre de Moraes o abusivo inquérito das fake news. Um inquérito que jamais deveria ter existido, e cuja relatoria foi atribuída por meios tortuosos, por muitos anos foi usado por Moraes e seus aliados para perseguir e censurar críticos, em uma paradoxal abolição das liberdades individuais em nome de uma suposta “defesa da democracia”. Ainda que, por razões processuais, as ações penais derivadas desse inquérito, com denúncia formalmente recebida, sigam sob a relatoria de Moraes, espera-se que Fachin finalmente encerre esse capítulo desastroso da história jurídica nacional.

Muito mais que um conflito interno do Supremo, está em curso uma batalha pela própria República, uma escolha entre o poder do povo e da lei, e o poder absoluto exercido por quatro ou cinco pessoas que não se sentem limitadas por nada, o que torna muito mais difícil (mas não impossível) a tarefa de pará-las. Os meios existem, como Fachin acaba de demonstrar ao tirar de Moraes o “inquérito do fim do mundo”, mas é preciso seguir até o fim. O STF passará por sua hora da verdade no próximo dia 15, quando haverá uma sessão presencial extraordinária para julgar o pedido de investigação de Moraes por suas ligações com Daniel Vorcaro. O Brasil acompanhará atentamente essa sessão, porque nela será possível perceber, sem dúvida alguma, quem são os ministros que cumprem seu papel e quem são os ministros indignos da toga que vestem, os que usam o poder em benefício próprio. E veremos que não há como tratá-los igualmente, numa falsa equivalência moral que reduz tudo a divergências legítimas ou “erros” dos dois lados que se anulam: os maus ministros, seus cúmplices e os omissos hão de se mostrar como o que verdadeiramente são.

PENINHA - DICA MUSICAL

DEU NO JORNAL

RODRIGO CONSTANTINO

TERRA SEM LEI

O ministro Flávio Dino determinou nesta quarta-feira (9) a reintegração aos cargos do diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Passos Rodrigues, e do diretor de Inteligência, Leandro Almada, que foram afastados pelo ministro André Mendonça. Ele o fez sob o pretexto do inquérito das emendas parlamentares (?), e ainda blindou ambos de quaisquer medidas cautelares futuras. Não é preciso ser jurista para enxergar o total absurdo dessa ação. Mas vamos pedir ajuda a quem é do Direito mesmo assim.

André Marsiglia comentou: “Flávio Dino suspendeu a decisão de um colega, já respaldada pela maioria da Turma, sob a estapafúrdia alegação de conexão com casos sobre emendas parlamentares relatados por ele. Se Dino pode revisar decisões de Mendonça, Mendonça também pode revisar as de Dino. E se Mendonça agora decidir suspender a suspensão de Dino? O STF virou um bangue-bangue”.

Emerson Grigollette desabafou: “Não temos um Estado, não temos Democracia, não temos Direito, não temos República, não temos Federação, não temos Separação entre os Poderes, não temos direitos fundamentais. Além de impostos, Bolsa Família (por enquanto) e a maior associação criminosa da história da humanidade, sejamos francos: o que sobrou do Brasil?”

Ludmila Lins Grilo resumiu: “Em vez de apresentar petição no procedimento que o afastou do cargo, Andrei Rodrigues resolveu escolher o juiz que julgaria seu caso (“forum shopping”) e achou por bem entrar de filão no inquérito das emendas parlamentares (?!). Em vez de rechaçar a manobra ilícita, Flávio Dino matou no peito e a endossou, revertendo monocraticamente uma decisão que havia sido dada por órgão colegiado”. A juíza sugeriu: “Virou bang-bang. A segunda turma vai se permitir ser humilhada desta forma por um único ministro? Se é bang-bang, derrubem a decisão de Flávio Dino, e o façam rápido”.

Vários outros advogados comentaram com espanto a decisão do comunista Dino, mas, repito, nem é preciso ser do ramo para notar o grau de arbítrio presente. Dino chega a mencionar encontro entre Daniel Vorcaro e Mendonça para alegar que o ministro “interfere” na Polícia Federal, deixando de lado a relação entre Vorcaro e Andrei Rodrigues. É um nível de surrealismo que nenhum autor de ficção teria a ousadia de inventar, pois não seria crível.

O tribunal virou a casa da mãe Joana, terra sem lei, onde o poder bruto impera. Dino fez o que fez pois “pode”, pois não há consequências. Edson Fachin age como a rainha da Inglaterra, alheio ao caos total que tomou conta da instituição. “Soberano é quem decide sobre o estado de exceção”, disse Carl Schmitt. E quem tem poder de fato é a gangue que tomou de assalto o órgão.

A situação é tão absurda que decidi perguntar ao Grok como seria se o STF fosse substituído pela Inteligência Artificial. O Grok, advogando em causa própria, foi mais imparcial que nossos ministros e apresentou alguns riscos institucionais, mas também elencou várias melhoras, entre elas: “Eliminar alguns vícios humanos óbvios: amizade, vaidade, cálculo de sobrevivência institucional, troca de favores, ‘código de conduta’ que nunca vira código”.

Ele resumiu: “Em tese, seria o fim da ‘juristocracia personalista’: o poder deixaria de residir em 11 currículos e passaria a residir em um sistema”. Mas isso é utopia. Nosso “sistema” seguirá dominado por currículos humanos, e os piores possíveis. A juristocracia personalista avança de forma impressionante, rasgando totalmente a Constituição.

Pensando numa “solução” mais realista e de curto prazo, é importante lembrar que temos uma eleição se aproximando. Em essência, o eleitor terá de escolher se deseja mais quatro ministros com o perfil de Dino, Zanin, Moraes e Toffoli, ou quatro ministros mais parecidos com André Mendonça. É isso que está em jogo.

DEU NO X

ROQUE NUNES – AI, QUE PREGUIÇA!

REQUIESCAT IN PAX

Tenho acompanhado nesses últimos dias os tsunamis de lama, merda e safadeza que tomou conta do país, e, com a minha cupidez caeté, estou lambendo os beiços, atiçando a minha fogueira irracional e torcendo para que um pedaço de toitiço sobre para eu colocar no espeto e saciar a minha fome anticivilizacional neste quadrante do planeta. E, chego a uma conclusão aterradora: a república brasileira morreu. Virou um cadáver insepulto fedendo, se decompondo em plena praça pública.

Não digo que a democracia brasileira morreu. Esta está morta há muito tempo. Aliás, quase não dá para precisar quando a democracia morreu e qual a sua causa mortis. Apenas se pode constatar a sua morte a partir da fedentina de seu cadáver. Desde a dita redemocratização, o Estado brasileiro foi organizado como um grande balcão de negócios feito para poucos, perpetuando oligarquias políticas que, desde o golpe de 15 de novembro se assenhorearam do poder e nunca mais o largou.

E, nesses cento e pouco anos, com contrações e distensões, o arremedo de democracia brasileira, afastou o povo das decisões políticas, construiu um arcabouço burocrático que criou uma casta dicotômica: a classe burocrática que se adonou do Estado, e o resto, cuja única função é sustentar o falacioso estado democrático.

No entanto, é necessário não confundir democracia com república. A China é uma república, a Nicarágua é uma república. A Coreia do Norte é uma república, Cuba é uma república, porém, estão longe, mas muito longe de serem democracias. A república, do latim, res pública, ou coisas do povo, na sua tradução mais lata, é sistema de governo que, em tese deveria se sustentar baseada na vontade da sociedade, no ordenamento jurídico definido pela sociedade expressa nas leis, na sua constituição, no direito natural e positivo, e o Estado seria apenas a expressão da vontade da sociedade, organizado para, temporariamente, através de representantes, refletir o bem comum e as determinações dos seus mandantes: o povo.

A República brasileira morreu. E aqui o termo que eu uso para morte é nekhrós, – olha Violante, caeté também sabe grego -, morte no sentido literal, desprovido de vida, sem o animus vital. E, além de morta, a república brasileira virou um cadáver insepulto, decompondo-se de maneira rápida e violenta para narizes e bocas para quem quiser ver.

Ouço um número de analistas políticos falando em salvar o que resta da democracia brasileira, mas não tocam na questão fundamental que eu vejo. Não há que salvar algo que já está morto. Da mesma forma, esses mesmos “analistas” não tocam na pergunta fundamental que deveria ser feita: Tem como salvar uma república que morreu e já está em adiantado estado de putrefação? Respondo: não. Não tem como devolver a vida a um sistema que já está entrando em estado enfisematoso. Na tanatologia, esse estado é quando o cadáver começa a inchar, a emitir gases putrefatos e a liquefazer os tecidos.

Esse é o estado da república brasileira. Está morta. Está putrefata. Está começando a eliminar necrochorume altamente contaminante. E, morreu pela nossa leniência com o errado, pela nossa moral elástica, pela nossa incapacidade e discernir o que certo e o que é errado. O que estamos vendo na dita “crise” entre os poderes não é causa da morte da república. É apenas consequência. Vocês, meus caros caetés, podem até discordar de meu pessimismo, e da minha constatação, mas é uma consequência lógica do sequestro do Estado pelas oligarquias políticas que desde 1899 vem se adonando do país. Uma hora, ou outra, as tentativas de manter o embalsamamento desse cadáver iria dar com a cara na parede. Esse momento chegou.

Eu não acredito que haja uma resposta a essa inação. Cadáver não reage. Cadáver não se posiciona. Há apenas uma aceleração do processo de putrefação que pode ser percebida pela cumplicidade dos poderes ditos republicanos, com a ilegalidade, com o crime e com a safadeza.

Há esperanças? Não acredito nessa possibilidade de se ressuscitar esse cadáver e coloca-lo em pé. Não vejo possibilidade de se animar esse cadáver. Seria apenas um zumbi autofágico. A república brasileira, no atual estágio de putrefação de morte, apenas precipita o país para um abismo estarrecedor que mata qualquer oportunidade de salvação. E, também, não acredito na possibilidade de renovação com eleições. Será apenas mudar a roupa do cadáver, em sepultá-lo.

Confesso que não tenho competência de propor solução alguma, mas apenas constatar que a república que nasceu em 1899, através de um golpe militar que excluiu o povo, morreu no século XXI, e aqueles que sempre parasitaram nela, estão renitentes em enterrar esse cadáver fedorento, mesmo que, para continuarem a se beneficiar, destruam a nação como um todo.