SEVERINO SOUTO - SE SOU SERTÃO

DEU NO JORNAL

NORMAL, NORMAL

A senadora Soraya Thronicke (PSB-MS) deixou boquiabertos membros da CCJ na sabatina de Jorge Messias ao concluir com a frase “quando vestir a toga, não se esqueça dos amigos”.

Ele foi rejeitado no plenário.

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Um justo pedido.

Os amiguinhos devem ser sempre lembrados depois de vestida a toga.

Um pedido compatível com a republiqueta banânica da atualidade.

Já a reputação ilibada e o notável saber jurídico, estabelecidos na Constituição, são perfeitamente dispensáveis.

DEU NO X

ALEXANDRE GARCIA

A FARRA DOS JATINHOS FICOU INTERNACIONAL

hugo motta sint maarten

Deputados e senadores voltaram de Sint Maarten, no Caribe, em jatinho de empresário de bets

Vamos falar mais uma vez desses aviõezinhos executivos com os quais empresários transportam autoridades dos três poderes. É ministro que vai de carona, ministro do Supremo que voa no avião do Vorcaro, e presidente da Câmara que pega carona no avião de um sujeito ligado ao “jogo do tigrinho”. E foi para ir à Las Vegas do Caribe, a Sint Maarten, uma ilha cuja metade é holandesa e tem três grandes cassinos.

A bagagem da turma – além de Hugo Motta, foram o senador Ciro Nogueira e os deputados Dr. Luizinho e Isnaldo Bulhões — estava toda escrita em um bilhete; além de tudo, há as imagens. O bilhete dizia que o auditor-fiscal Marco Antônio Canella (que já está respondendo a inquérito por causa disso) liberou todas as malas e bolsas que tinham eletrônicos e garrafas de belos vinhos, uísques e outras bebidas, certamente.

O presidente da Câmara, Hugo Motta, disse que fez tudo de acordo com a lei. Na verdade, passaram por cima da lei; todos os brasileiros estão sujeitos a terem as malas abertas, a passar pelo raio-X, mas tudo isso foi dispensado. O jatinho já desceu em um lugar conveniente; não foi Guarulhos, nem Congonhas, nem Galeão, mas o aeroporto de São Roque, provavelmente já com essa intenção, depois de terem passado uma boa estada lá na ilha dos cassinos.

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Autoridades não podem estar imunes à fiscalização

Eu vi, pela lista de passageiros, que as respectivas mulheres foram junto. Que boa vida! Digo isso porque a necessidade de decoro, de postura e de bom exemplo se multiplica quando alguém está representando o povo e tem o poder de fazer leis, de mudar leis, de cancelar leis, de fiscalizar os outros. Eles precisam ser fiscalizados também.

Falo na qualidade de mandante. Nós todos somos mandantes, temos de colocar isso na cabeça na hora de votar. Nós os sustentamos com nossos impostos, nós os nomeamos com o nosso voto, e nós devemos fiscalizá-los. Devemos pensar um milhão de vezes antes de escolher o candidato, para não acontecer que pessoas como essas sejam eleitas por milhares de pessoas e não estejam à altura desses eleitores porque não se dão conta do que é decoro, do que é postura, do que é vida ética, civilizada.

Isso não acontece aqui na Europa, onde estou. Se acontece, a punição é severa. No Japão é ainda mais rígido: o próprio sujeito, para não envergonhar a família, pratica aquilo que os japoneses chamam de harakiri. Temos de registrar isso porque não é só o jato do sujeito do tigrinho; temos o jatinho do Vorcaro também. Malu Gaspar está cansada de mostrar como funcionam essas combinações: uma hora é Dias Toffoli, outra hora é Alexandre de Moraes. E esses favores caem muito mal.

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O agente público que aceita favores fica devedor, não tem escapatória

Passei um ano e meio no Palácio do Planalto, de 1979 para 1980, e recebi muitas ofertas; não aceitei nenhuma. No momento em que se aceita um presente estando em um cargo público, eu fico devedor e preciso retribuir o favor a esse doador bondoso, e vice-versa. Estou há mais de 50 anos em Brasília, mantendo distância sanitária do poder. A relação é respeitosa, é profissional, pode ser até amistosa, mas jamais pode ser íntima, com trocas de presentes ou favores. Não funciona. Há uma coisa chamada ética, necessária para que as coisas corram de modo normal.

DEU NO X

PROMOÇÕES E EVENTOS

LIVRO DO COLUNISTA FUBÂNICO XICO BIZERRA

Dia desses andei relendo esse livrinho e me encantei, de novo. 30 conversas interessantes com gente do Nordeste, tipo Dom Hélder, Manoel Bandeira, Luiz Gonzaga, João Cabral de Melo Neto, Ariano Suassuna, Jackson do Pandeiro, Sivuca, dentre outros.

Como se não bastasse tem prefácio e apresentações de Dr. José Paulo Cavalcanti Filho, Maciel Melo, Luiz Berto e Paulo Rocha.

Gostei e recomendo.

É só pedir pelo imeio xicobizerra@gmail.com – que eu entrego em todo o Brasil.

E custa só R$ 46,00, frete incluso.

DEU NO X

MAURINO JÚNIOR - SEM CRÔNICAS

A ÚLTIMA ILUSÃO DA HUMANIDADE

Há momentos na história em que a humanidade não apenas descobre algo novo — ela é forçada a se redescobrir. Não se trata de acumular conhecimento, mas de deslocar o próprio eixo daquilo que acreditava ser. Durante séculos, o ser humano habitou um universo confortável, ainda que ilusório. Um universo onde havia centro, propósito evidente e uma espécie de privilégio implícito. Então vieram os golpes — não violentos, mas inexoráveis.

Copérnico deslocou a Terra. De súbito, não éramos o ponto fixo ao redor do qual tudo girava. Éramos apenas mais um corpo em movimento, suspenso em um espaço vasto e indiferente. Darwin aprofundou a ferida. Aquilo que pensávamos ser uma ruptura — nossa suposta separação da natureza — revelou-se continuidade. Não éramos uma exceção, mas um capítulo de um processo longo, cego e elegante: a evolução. Freud, por sua vez, voltou o olhar para dentro e removeu o último refúgio de soberania. Nem mesmo a mente, esse território íntimo, nos pertencia por completo. Não éramos senhores absolutos de nós mesmos.

E ainda assim, mesmo após essas três grandes descentralizações, restava uma última fortaleza silenciosa — talvez a mais profunda de todas: A ideia de que, apesar de tudo, a vida… era nossa. Que, em meio ao silêncio cósmico, a Terra era um acontecimento singular. Que, mesmo não sendo o centro do Universo, éramos ao menos o único lugar onde o Universo havia despertado para si mesmo. Agora imaginem o colapso dessa última ilusão. Imaginem a confirmação inequívoca de que a vida não é um acidente isolado, mas uma tendência do cosmos. Que, em outros mundos, sob outras condições, a matéria também encontrou caminhos para organizar-se, persistir, evoluir — talvez até pensar. Nesse momento, não perderíamos apenas um privilégio. Perderíamos uma narrativa.

A humanidade deixaria de ser o palco exclusivo onde o drama da existência se desenrola. Passaria a ser um entre inúmeros experimentos cósmicos — cada qual com sua própria história, sua própria lógica, sua própria forma de enfrentar o absurdo de existir. Não seria apenas um choque científico. Seria um abalo ontológico. Pois a pergunta deixaria de ser “por que estamos aqui?” e se transformaria em algo muito mais vasto e inquietante: “Que tipo de fenômeno é a vida, que insiste em emergir no tecido do Universo?” E talvez, diante dessa pergunta, algo curioso aconteça. Não nos tornaríamos menores. Nos tornaríamos mais lúcidos. Perder o centro não é desaparecer — é ganhar perspectiva. Ser apenas uma parte não é ser irrelevante — é participar de algo maior do que qualquer imaginação anterior foi capaz de conceber. E talvez seja esse o verdadeiro destino das grandes descobertas: Não nos confortar. Mas nos libertar da necessidade de sermos o centro de tudo.

DEU NO X

DEU NO JORNAL

AO REJEITAR MESSIAS, SENADO RENOVA ESPERANÇA DO BRASILEIRO

Editorial Gazeta do Povo

senado jorge messias

O advogado-geral da União, Jorge Messias, durante sabatina na CCJ do Senado

Prevaleceu a decência entre os senadores chamados a avaliar o nome de Jorge Messias, advogado-geral da União, indicado por Lula para a vaga deixada por Luís Roberto Barroso no Supremo Tribunal Federal. Em uma daquelas vitórias que lavam a alma do país, o plenário da casa ficou longe de dar a Messias os 41 votos de que ele precisava para ganhar a toga; na verdade, ele nem mesmo chegou a ter o apoio da maioria dos senadores presentes à sessão desta quarta-feira. Foram 42 votos contra sua nomeação, e 34 favoráveis, com uma abstenção. O recado está dado: Lula não pode mais tratar o Supremo como seu assistente judicial pessoal, enchendo a corte de aliados, e o Senado pode, sim, se tornar o tão necessário contrapeso ao Supremo para que o país possa recuperar a normalidade institucional, o respeito aos direitos individuais e a democracia.

O resultado na Comissão de Constituição e Justiça, após a sabatina, já tinha sido apertado: Messias conseguira a aprovação por 16 a 11 – a título de comparação com os outros dois indicados de Lula no atual mandato, Cristiano Zanin tinha obtido 21 votos favoráveis e Flávio Dino, 17. O fato de Messias ter conquistado apenas dois votos a mais que os 14 necessários já mostrava que, se não fosse pelas manobras realizadas pelo governo e seus aliados na véspera da sabatina, com a troca de membros da CCJ, talvez o advogado-geral da União nem tivesse passado pela primeira etapa de deliberações no Senado. O petismo e seus aliados demonstravam otimismo – “no dia que vestir a toga, eu lhe peço que não se esqueça dos amigos”, disse Soraya Thronicke (PSB-MS). Mas havia senadores confiantes na rejeição, contando com o voto secreto e com a divisão da bancada evangélica, que Messias até cortejou citando a Bíblia e afirmando ser contra o aborto – embora não conseguisse escapar do absurdo parecer favorável à permissão para a prática bárbara da assistolia fetal.

Os 42 votos “não” desta quarta-feira são o resultado do esforço de um país inteiro. Em primeiro lugar, é preciso parabenizar a maioria corajosa de parlamentares, quem quer que sejam – já que o voto era secreto. Eles souberam resistir ao rolo compressor do governo, de outros ministros do Supremo que endossaram o nome de Messias, de entidades empresariais que manifestaram seu apoio ao advogado-geral da União. Felizmente, em contraponto a esses apoios, os brasileiros se mobilizaram: dos eleitores que entraram em contato com seus senadores até os grupos que se empenharam em mostrar aos parlamentares e ao país o dano que Jorge Messias faria com a toga que Soraya Thronicke antecipadamente quis vestir nele, todos também podem considerar essa vitória como sua.

A rejeição de Jorge Messias reacende no brasileiro a esperança de algo que muitos já haviam se resignado a deixar para 2027, ou mesmo que já tinham abandonado de vez: um Senado que saiba se levantar diante dos abusos do Supremo, cumprindo o dever que a Constituição lhe impõe no sistema de freios e contrapesos. Um liberticida foi impedido de entrar no STF, mas há aqueles que já estão lá, depredando as garantias e liberdades democráticas há anos. Outros, ainda (ou, às vezes, os mesmos), dão mostras frequentes de sua inaptidão para o cargo, retaliando e ameaçando críticos, recusando-se a explicar ligações nada republicanas, blindando-se mutuamente sem pudor. O Senado aprendeu a fechar a porta de entrada para o Supremo; precisa, agora, aprender a abrir a porta de saída para quem já não tem condições de permanecer na corte.

É grande essa responsabilidade, mas os senadores acabam de demonstrar a disposição de estar à altura do desafio. Não se trata, aqui, de simplesmente fazer história (já que a última rejeição de um indicado ao STF havia ocorrido no século 19), ou de impor uma grande derrota a Lula, mas de prestar um serviço inestimável ao país. O Brasil precisa de instituições comprometidas com o respeito à Constituição, à lei, à democracia, à separação de poderes, às liberdades individuais, ao devido processo legal. E, se o Supremo não demonstra a menor intenção de abrir mão dos superpoderes que tomou para si, cabe ao Senado essa tarefa. A votação desta quarta-feira foi um início; que os senadores mantenham o curso.