A PALAVRA DO EDITOR

DESMANTELO

Por conta de um desmantelo acontecido na cirurgia  feita semana passada, este editor teve que voltar à emergência e foi internado ontem. Tudo resolvido. Segundo informou o médico, a alta está prevista pra hoje, quarta-feira. 

Vou torcer pra que volte mesmo hoje pra casa. Onde poderei editar normalmente esta gazeta escrota, no computador. Estou fazendo esta postagem a partir do meu celular. 

Aguardemos. 

Bom dia pra todos os estimados leitores!!

PENINHA - DICA MUSICAL

LAUDEIR ÂNGELO - A CACETADA DO DIA

BERNARDO - AS ÚLTIMAS NOTÍCIAS

MARCELO BERTOLUCI - DANDO PITACOS

HUMANOGRAMA

Muitos anos atrás, em meus tempos de faculdade, em um livro sobre estratégias empresariais, li uma frase que nunca mais esqueci. “O importante é o humanograma. Se o humanograma for bom, qualquer organograma funciona. Se não for, nenhum organograma dá jeito.”

Tenho me lembrado com frequência dessa idéia porque vejo que nosso país parece estar viciado em tentar consertar as coisas mudando o organograma, ao invés de reconhecer que o problema está no humanograma. Aliás, nem deveríamos chamar de problema aquilo que são simplesmente as consequências de nossas próprias escolhas e de nosso próprio modo de pensar.

No momento, parece que o grande problema a ser resolvido é o STF. Do jeito que alguns jornalistas falam, parece que os ministros do STF surgiram do nada, ou que uma nave alienígena pousou em Brasília, dominou os terráqueos e colocou onze extraterrestres no supremo. Toda semana surge uma idéia diferente para “reformar” o judiciário. A OAB, por exemplo, sugeriu que os ocupantes do supremo tenham idade mínima de cinquenta anos e um mandato de doze anos (nem dez nem quinze: doze).

Não sei que tipo de cálculo levou os doutos doutores da OAB à conclusão de que doze anos é o tamanho ideal de mandato para resolver nossas crises, mas em minha cabeça surge outro fato: A suprema corte dos Estados Unidos é escolhida exatamente do mesmo modo que aqui: o presidente indica e o senado aprova. Mas por lá não se ouve falar de juízes envolvidos com banqueiros ou participando de festas suspeitas, e muito menos de disputas internas por poder e pelo controle de inquéritos e de decisões. Isto deveria nos mostrar que o problema não é o método de escolha, a legislação, a burocracia, a regulamentação ou o organograma: é o humanograma mesmo. Em outras palavras, o problema da nossa Suprema Corte são as pessoas que foram colocadas lá.

Isso me lembra outra citação: no filme The Children Act (boa sugestão para uma coluna do Cícero Tavares), Emma Thompson faz o papel de uma juíza na Inglaterra. Ao anunciar sua decisão em um julgamento ela diz o seguinte: “Este é um caso em que é muito difícil dizer qual a decisão mais justa. Mas nós juízes não estamos aqui para fazer o que achamos justo. Estamos aqui para cumprir a lei.”

Em que pesem as grandes diferenças entre o “common law” britânico, que veio da Idade Média, e o “civil law” brasileiro baseado no direito romano, esta frase sozinha poderia resolver boa parte dos nossos problemas.

A questão aqui é que nenhum juiz brasileiro acha que sua função é cumprir a lei. Pelo contrário, nossos juízes acreditam ser portadores de um mandato divino, donos de uma sabedoria mágica que os torna donos da justiça e da verdade absolutas, e que sua função é impôr essa verdade aos seus “súditos”.

Notem que a Emma não disse “fazer o que é justo”, e sim “fazer o que achamos justo”. É uma diferença importante. A cultura dos anglo-saxões não acredita em uma verdade única e não acha que a decisão de um juiz é necessariamente a mais justa. Por isso que há mais de 800 anos o rei inglês teve que assinar uma carta reconhecendo que ele não podia tudo. Na nossa cultura latina/ibérica/católica, por outro lado, o conceito de poder absoluto é totalmente natural. Nossa primeira constituição dizia que o imperador podia revogar qualquer coisa que qualquer um dos três poderes decidisse, e que ele, o imperador, “não está sujeito à responsabilidade alguma”. Até na língua nota-se a diferença: em inglês os tribunais e juízes são “justice” e o que é certo ou justo é “fair” – uma coisa é diferente da outra. Por aqui, “justo” e “justiça” vêm da mesma raiz, o que reforça a idéia de que tudo que vêm da justiça é justo e não devemos discutir.

É claro que essa postura subserviente de aceitar as ordens da autoridade sem discutir não acontece só com o judiciário. Executivo, legislativo, ministério público, empresas estatais, universidades, tudo que está ligado ao governo tende a cultivar a postura de donos da verdade e a crença de que a sua convicção pessoal é o parâmetro do que é correto e do que é justo.

Já faz alguns meses que o país está completamente paralisado à espera das eleições e da definição do nome do próximo presidente. As infindáveis pesquisas deixam claro que boa parte da população defende o conceito “o poder pode tudo” e acredita que a solução de todos nossos problemas depende da vitória do candidato “certo” e da derrota do candidato “errado”. Imprensa e redes sociais reforçam esse pensamento. Ninguém, infelizmente, parece enxergar o óbvio: para resolver nossos problemas, a mudança deve começar dentro de cada um de nós.

PENINHA - DICA MUSICAL

DEU NO JORNAL

CORRESPONDÊNCIA RECEBIDA

DEU NO JORNAL

RODRIGO CONSTANTINO

GOLPE ESTÁ EM CURSO

O ministro Flávio Dino atropelou o TSE neste domingo e mandou restabelecer mais de mil publicações que o próprio Tribunal Eleitoral havia considerado notoriamente inverídicas. A campanha de Flávio Bolsonaro falou em usurpação de competência. Acertou. Um ministro do STF escolhido a dedo, em processo que não passou por livre distribuição, cassou decisão da Justiça Eleitoral para devolver a mentira ao ar. Isso não é jurisprudência. É conveniência.

Mas o espetáculo verdadeiro não é o atropelo institucional. É a conversão. Em 2022, o TSE de Alexandre de Moraes impedia que se falasse a verdade sobre Lula. Qualquer associação incômoda virava “desinformação”, qualquer crítica virava inquérito, qualquer post virava ordem de remoção. Agora o mesmo campo ideológico descobre, de repente, que liberdade de expressão é cláusula pétrea. Comunista virou liberal. Quase emociona.

Se o critério de Dino vale – “não há grau de certeza de ilicitude” suficiente para censurar –, então o critério vale para todo mundo. Ou a liberdade é universal, ou é só mais um instrumento de poder. Como ele escolheu o segundo caminho, vamos usar o primeiro.

Podemos, portanto, divulgar com a mesma desenvoltura que Lula e Janja querem a macumba com o status de religião de Estado. Que o projeto civilizatório do lulismo inclui terreiro oficial, despacho no Palácio e oxalá no lugar da cruz. E estaríamos mais perto da verdade! Janja já publicou foto com estatuetas umbandistas e escreveu: “Saudades de vestir branco e girar, girar, girar…” Pomba gira!

Socialista, na época de eleição, aparece na igreja, tira foto com padre, fala em “povo de fé” e, no dia seguinte, trata a religião como atraso medieval. Defender família tradicional vira motivo de deboche no carnaval lulista, em ala das “conservas”. Hipocrisia com horário marcado.

Dino já fez discurso enfático sobre os limites da liberdade de expressão, alegando que os dias das mentiras estavam contados no país, e que 2022 foi um exemplo do que viria pela frente. O que veio foi o contrário: liberar as mentiras pois afetam a campanha do adversário de Lula.

Se Tabet pode escrever que “a família miliciana odeia mulher preta” e isso vira liberdade religiosa, então também é liberdade religiosa apontar que o petismo só respeita o sagrado quando precisa de voto. Fora disso, a fé católica de dezenas de milhões de brasileiros vira alvo fácil, e a umbanda vira identidade progressista.

Dino não restabeleceu a liberdade de expressão. Restabeleceu a assimetria. Em 2022, a verdade sobre Lula era perigosa demais para circular. Em 2026, a mentira sobre Flávio é inofensiva demais para ser retirada. O nome disso não é princípio. É seletividade. O ex-ministro de Lula e companheiro de jornada comunista vestiu a toga, mas não abandonou a bandeira vermelha.

A ironia final é que o ministro, ao cassar o TSE para proteger um post de humorista, acabou confessando o que sempre negou: a censura no Brasil nunca foi sobre combater mentira. Foi sobre combater o adversário. Quando o adversário muda de lado no placar, a liberdade de expressão reaparece como milagre. Comunista a favor da liberdade. O Brasil já viu de tudo. Agora viu até isso.

Há um golpe em curso e Dino é seu principal instrumento. Isso denota desespero com as pesquisas. Mas o tiro pode sair pela culatra, como no caso da proibição das bets: a cada nova medida absurda dos ministros lulistas e do presidente, mais votos indecisos se convertem contra a manutenção dessa corja no poder.