LAUDEIR ÂNGELO - A CACETADA DO DIA

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MARCELO BERTOLUCI - DANDO PITACOS

HUMANOGRAMA

Muitos anos atrás, em meus tempos de faculdade, em um livro sobre estratégias empresariais, li uma frase que nunca mais esqueci. “O importante é o humanograma. Se o humanograma for bom, qualquer organograma funciona. Se não for, nenhum organograma dá jeito.”

Tenho me lembrado com frequência dessa idéia porque vejo que nosso país parece estar viciado em tentar consertar as coisas mudando o organograma, ao invés de reconhecer que o problema está no humanograma. Aliás, nem deveríamos chamar de problema aquilo que são simplesmente as consequências de nossas próprias escolhas e de nosso próprio modo de pensar.

No momento, parece que o grande problema a ser resolvido é o STF. Do jeito que alguns jornalistas falam, parece que os ministros do STF surgiram do nada, ou que uma nave alienígena pousou em Brasília, dominou os terráqueos e colocou onze extraterrestres no supremo. Toda semana surge uma idéia diferente para “reformar” o judiciário. A OAB, por exemplo, sugeriu que os ocupantes do supremo tenham idade mínima de cinquenta anos e um mandato de doze anos (nem dez nem quinze: doze).

Não sei que tipo de cálculo levou os doutos doutores da OAB à conclusão de que doze anos é o tamanho ideal de mandato para resolver nossas crises, mas em minha cabeça surge outro fato: A suprema corte dos Estados Unidos é escolhida exatamente do mesmo modo que aqui: o presidente indica e o senado aprova. Mas por lá não se ouve falar de juízes envolvidos com banqueiros ou participando de festas suspeitas, e muito menos de disputas internas por poder e pelo controle de inquéritos e de decisões. Isto deveria nos mostrar que o problema não é o método de escolha, a legislação, a burocracia, a regulamentação ou o organograma: é o humanograma mesmo. Em outras palavras, o problema da nossa Suprema Corte são as pessoas que foram colocadas lá.

Isso me lembra outra citação: no filme The Children Act (boa sugestão para uma coluna do Cícero Tavares), Emma Thompson faz o papel de uma juíza na Inglaterra. Ao anunciar sua decisão em um julgamento ela diz o seguinte: “Este é um caso em que é muito difícil dizer qual a decisão mais justa. Mas nós juízes não estamos aqui para fazer o que achamos justo. Estamos aqui para cumprir a lei.”

Em que pesem as grandes diferenças entre o “common law” britânico, que veio da Idade Média, e o “civil law” brasileiro baseado no direito romano, esta frase sozinha poderia resolver boa parte dos nossos problemas.

A questão aqui é que nenhum juiz brasileiro acha que sua função é cumprir a lei. Pelo contrário, nossos juízes acreditam ser portadores de um mandato divino, donos de uma sabedoria mágica que os torna donos da justiça e da verdade absolutas, e que sua função é impôr essa verdade aos seus “súditos”.

Notem que a Emma não disse “fazer o que é justo”, e sim “fazer o que achamos justo”. É uma diferença importante. A cultura dos anglo-saxões não acredita em uma verdade única e não acha que a decisão de um juiz é necessariamente a mais justa. Por isso que há mais de 800 anos o rei inglês teve que assinar uma carta reconhecendo que ele não podia tudo. Na nossa cultura latina/ibérica/católica, por outro lado, o conceito de poder absoluto é totalmente natural. Nossa primeira constituição dizia que o imperador podia revogar qualquer coisa que qualquer um dos três poderes decidisse, e que ele, o imperador, “não está sujeito à responsabilidade alguma”. Até na língua nota-se a diferença: em inglês os tribunais e juízes são “justice” e o que é certo ou justo é “fair” – uma coisa é diferente da outra. Por aqui, “justo” e “justiça” vêm da mesma raiz, o que reforça a idéia de que tudo que vêm da justiça é justo e não devemos discutir.

É claro que essa postura subserviente de aceitar as ordens da autoridade sem discutir não acontece só com o judiciário. Executivo, legislativo, ministério público, empresas estatais, universidades, tudo que está ligado ao governo tende a cultivar a postura de donos da verdade e a crença de que a sua convicção pessoal é o parâmetro do que é correto e do que é justo.

Já faz alguns meses que o país está completamente paralisado à espera das eleições e da definição do nome do próximo presidente. As infindáveis pesquisas deixam claro que boa parte da população defende o conceito “o poder pode tudo” e acredita que a solução de todos nossos problemas depende da vitória do candidato “certo” e da derrota do candidato “errado”. Imprensa e redes sociais reforçam esse pensamento. Ninguém, infelizmente, parece enxergar o óbvio: para resolver nossos problemas, a mudança deve começar dentro de cada um de nós.

PENINHA - DICA MUSICAL

DEU NO JORNAL

CORRESPONDÊNCIA RECEBIDA

DEU NO JORNAL

RODRIGO CONSTANTINO

GOLPE ESTÁ EM CURSO

O ministro Flávio Dino atropelou o TSE neste domingo e mandou restabelecer mais de mil publicações que o próprio Tribunal Eleitoral havia considerado notoriamente inverídicas. A campanha de Flávio Bolsonaro falou em usurpação de competência. Acertou. Um ministro do STF escolhido a dedo, em processo que não passou por livre distribuição, cassou decisão da Justiça Eleitoral para devolver a mentira ao ar. Isso não é jurisprudência. É conveniência.

Mas o espetáculo verdadeiro não é o atropelo institucional. É a conversão. Em 2022, o TSE de Alexandre de Moraes impedia que se falasse a verdade sobre Lula. Qualquer associação incômoda virava “desinformação”, qualquer crítica virava inquérito, qualquer post virava ordem de remoção. Agora o mesmo campo ideológico descobre, de repente, que liberdade de expressão é cláusula pétrea. Comunista virou liberal. Quase emociona.

Se o critério de Dino vale – “não há grau de certeza de ilicitude” suficiente para censurar –, então o critério vale para todo mundo. Ou a liberdade é universal, ou é só mais um instrumento de poder. Como ele escolheu o segundo caminho, vamos usar o primeiro.

Podemos, portanto, divulgar com a mesma desenvoltura que Lula e Janja querem a macumba com o status de religião de Estado. Que o projeto civilizatório do lulismo inclui terreiro oficial, despacho no Palácio e oxalá no lugar da cruz. E estaríamos mais perto da verdade! Janja já publicou foto com estatuetas umbandistas e escreveu: “Saudades de vestir branco e girar, girar, girar…” Pomba gira!

Socialista, na época de eleição, aparece na igreja, tira foto com padre, fala em “povo de fé” e, no dia seguinte, trata a religião como atraso medieval. Defender família tradicional vira motivo de deboche no carnaval lulista, em ala das “conservas”. Hipocrisia com horário marcado.

Dino já fez discurso enfático sobre os limites da liberdade de expressão, alegando que os dias das mentiras estavam contados no país, e que 2022 foi um exemplo do que viria pela frente. O que veio foi o contrário: liberar as mentiras pois afetam a campanha do adversário de Lula.

Se Tabet pode escrever que “a família miliciana odeia mulher preta” e isso vira liberdade religiosa, então também é liberdade religiosa apontar que o petismo só respeita o sagrado quando precisa de voto. Fora disso, a fé católica de dezenas de milhões de brasileiros vira alvo fácil, e a umbanda vira identidade progressista.

Dino não restabeleceu a liberdade de expressão. Restabeleceu a assimetria. Em 2022, a verdade sobre Lula era perigosa demais para circular. Em 2026, a mentira sobre Flávio é inofensiva demais para ser retirada. O nome disso não é princípio. É seletividade. O ex-ministro de Lula e companheiro de jornada comunista vestiu a toga, mas não abandonou a bandeira vermelha.

A ironia final é que o ministro, ao cassar o TSE para proteger um post de humorista, acabou confessando o que sempre negou: a censura no Brasil nunca foi sobre combater mentira. Foi sobre combater o adversário. Quando o adversário muda de lado no placar, a liberdade de expressão reaparece como milagre. Comunista a favor da liberdade. O Brasil já viu de tudo. Agora viu até isso.

Há um golpe em curso e Dino é seu principal instrumento. Isso denota desespero com as pesquisas. Mas o tiro pode sair pela culatra, como no caso da proibição das bets: a cada nova medida absurda dos ministros lulistas e do presidente, mais votos indecisos se convertem contra a manutenção dessa corja no poder.

DEU NO X

DEU NO JORNAL

O BRASIL NÃO TEM A CARA DO STF

Carlos Alberto Di Franco

A atual situação do Brasil preocupa. E muito. O desencanto da população é imenso. Os poderes da República, isolados no conforto da Ilha da Fantasia, parecem viver de costas para a cidadania. Não escutam as ruas, desprezam as críticas e, frequentemente, reagem às cobranças legítimas da sociedade com arrogância e autoritarismo.

Existe um Brasil real, constituído por um povo bom, trabalhador e honrado. Um povo que acorda cedo e dorme tarde, que enfrenta transportes precários, hospitais deficientes e uma insegurança crescente. Paga impostos escorchantes e recebe pouquíssimo em troca. É o Brasil dos pequenos empresários, dos profissionais liberais, dos agricultores, dos professores e de milhões de famílias que lutam para educar seus filhos e preservar seus valores.

E existe outro Brasil: o país dos poderosos da República, daqueles que se consideram acima das leis e imunes à prestação de contas. É o universo dos privilégios, dos gabinetes refrigerados, das decisões tomadas longe da realidade e dos que chegam ao absurdo de invocar a ética da máfia como baliza de comportamento para magistrados. Uma inversão moral que, em qualquer democracia saudável, provocaria imediato e generalizado repúdio.

As cenas ocorridas antes, durante e depois da sessão do Supremo Tribunal Federal, realizada em 15 de setembro, para decidir sobre a abertura de investigação acerca das supostas relações entre o ministro Alexandre de Moraes e o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, provocaram espanto, indignação e verdadeira vertigem ética nas pessoas de bem.

O dia 15 de setembro ficará registrado como uma data triste na história da República. O que deveria ter sido uma sessão sóbria, transparente e esclarecedora transformou-se num espetáculo lamentável de bate-bocas, ironias, ataques pessoais, manobras processuais e acusações gravíssimas. Em vez de oferecer respostas objetivas à sociedade, a mais alta corte do país expôs suas fraturas internas e terminou sem decidir a questão fundamental.

O Supremo começou a sessão pressionado por suspeitas muito graves e a encerrou ainda mais desacreditado. A discussão foi desviada do ponto central. O que precisava ser esclarecido era simples: existem ou não elementos suficientes para investigar a conduta de Alexandre de Moraes? Em lugar de enfrentar essa pergunta, alguns ministros preferiram embaralhar os casos, discutir o rito, lançar suspeitas sobre colegas e criar obstáculos a uma apuração independente.

Mais grave: Alexandre de Moraes participou da discussão e votou numa matéria que dizia respeito diretamente a ele. É uma aberração. O mais elementar princípio da imparcialidade recomenda que ninguém julgue o próprio caso. Não se trata de antecipar culpa nem de condenar sem provas. Trata-se de preservar a dignidade da Justiça.

O pedido de vista de Flávio Dino, depois de horas de confrontos e acusações, adiou uma decisão que o país exigia com urgência. Houve ironias, interrupções e agressividade. O resultado foi devastador: o plenário do STF, que deveria pacificar conflitos, converteu-se no palco da própria crise.

Positivamente, o Brasil não tem a cara do atual Supremo Tribunal Federal.

O Judiciário está politizado e insensível. A corte suprema tornou-se uma das instituições de menor credibilidade do país. A perda de autoridade não ocorre por acaso. É consequência de decisões monocráticas abusivas, inquéritos intermináveis, censura, prisões preventivas prolongadas, invasão de competências do Congresso e confusão entre os papéis de investigador, acusador e julgador.

Impõe-se, por intermédio do Congresso Nacional, uma profunda reforma do Supremo. É preciso estabelecer mandatos para os ministros, regras objetivas de impedimento, limites às decisões monocráticas e mecanismos efetivos de controle. Ministros devem receber remuneração digna, dar aulas e produzir conhecimento. E só. Não podem manter institutos que negociem palestras, promovam eventos patrocinados por grupos interessados em decisões judiciais ou criem zonas nebulosas entre a magistratura e o poder econômico.

Da mesma forma, seus familiares não deveriam exercer advocacia nos tribunais superiores. A proximidade familiar com um ministro não pode converter-se em cartão de visitas profissional. Ainda que não exista ilegalidade formal, permanece o evidente conflito ético.

O cenário é desanimador? Sim. Mas quem escreve esta coluna, por paradoxal que pareça, é um otimista. Acredito no Brasil e na democracia. Não é mais possível abafar o grito de desespero nem menosprezar a revolta dos cidadãos. Há algo de podre na democracia brasileira. Mas não se reformará a democracia destruindo-a. Diante de manifestações tão fortes de antipolítica, é preciso valorizar a boa política, o diálogo, a transparência e as posturas propositivas.

O Brasil real não tem a cara da sessão de 15 de setembro. Não tem a cara dos privilégios, das manobras e da arrogância. Tem a face sofrida, mas esperançosa, de milhões de cidadãos que ainda acreditam na Justiça. É justamente por eles – e pelo futuro da República – que chegou a hora de dizer, mais uma vez, com serenidade e firmeza: basta!