Dr. Chateaubriand. Foto em 1957
Anadiplose pode até se assemelhar a algum nome de doença ou medicamento, mas não é. Pouco conhecida como figura de literatura, é uma forma de linguagem escrita que consiste na repetição da última palavra ou frase, logo no início ou mesmo no final da matéria.
Esta palavra ouvi numa das entrevistas do Dr. Assis Chateaubriand, homem de muita cultura e empresário criador do maior grupo de mídia brasileiro: os Diários e Emissoras Associados.
Através de vínculos com o jornalismo e literatura aprendi a apreciar aquele cidadão paraibano que se fez gigante na terra pernambucana, mostrando ao mundo o que é começar como repórter de jornal e se tornar o maior empresário do ramo.
Referindo-me a vários perfis biográficos anotei fatos interessantes: Francisco de Assis Chateaubriand Bandeira de Melo nasceu em Umbuzeiro, Paraíba, em 1892. Em 1904 veio residir o Recife e estudou no Ginásio Pernambucano. Aos 14 anos teve sua primeira experiência jornalística. Em 1908 ingressou na Faculdade de Direito e passou a colaborar no jornalismo, colaborando no Jornal Pequeno, Jornal do Recife e no Diário de Pernambuco.
Em 1913 bacharelou-se em Direito e já ocupava posição de destaque no jornalismo, chegando a Editor e Redator-chefe do Diário de Pernambuco. De 1915 a 1917 foi professor de Direito Romano e Filosofia do Direito na Faculdade de Direito do Recife.
Em 1917 deixou definitivamente o Recife e transferiu-se para o Rio de Janeiro, onde continuou sua carreira jornalística e jurídica.
Minha admiração por Dr. Chateaubriand se agigantou pelo que ouvi em diálogos esparsos, de gente como Muro Mota, Gilberto Freyre, Nelson Saldanha e Aníbal Fernandes; alguns desses, durante breves viagens no pequeno elevador do edifício-sede do Diário de Pernambuco.
Ele tinha como características pessoais, além da virtude do reconhecimento aos seus funcionários, a nacionalidade brasileira. E para demonstrá-la titulou todos os seus jornais, revistas, rádios e televisões com nomes baseados na língua tupi, excetuando-se aqueles adquiridos já com seus títulos fundamentados.
Tornaram-se marcas indeléveis: Rádio Tamoio, Rádio e Tv Tupi do Rio e São Paulo, Rádio Tamandaré e muitos outros órgãos de Comunicação Social, sedimentando as origens indígenas do País através do idioma originário brasileiro. A escolha de nomes indígenas ampliou seu Plano de Integração Nacional promovido pelos jornais, rádios e emissoras de televisão, criando um definitivo elo com os setores da nacionalidade brasileira.
Segundo notas de Fernando Moraes: “Em 21 de setembro de 1959, Chateaubriand instituiu o chamado Condomínio Acionário das Emissoras e Diários Associados e transferiu 49% das ações de suas empresas para 22 auxiliares principais e seus dois filhos. Depois, em 1962, ele doou aos 51% restantes para o mesmo grupo, completando a estrutura do Condomínio.
A intenção de Chateaubriand era impedir que o enorme patrimônio dos Diários Associados fosse simplesmente herdado e eventualmente desmembrado pelos familiares. As participações receberam cláusulas de inalienabilidade, incomunicabilidade. Assim, o funcionário escolhido não podia simplesmente vender sua participação nem deixá-la como herança.
Venho seguindo nestas crônicas o estilo de David Nasser, notável jornalista e escritor, que publicava crônicas e reportagens nas páginas da revista O Cruzeiro e costumava concluí-las citando o título. E isto se chama: anadiplose.
Até poucos dias, quando fiz reportagens para o Departamento de Projetos Especiais do “Diário”, sob a orientação de Arijaldo Carvalho, comentei com meus colegas um episódio interessante, que ora descrevo.
Fui cobrir um banquete de gente importante, no Restaurante Leite, em 27 de abril de 1957, acompanhado do fotógrafo Diógenes Montenegro. Nós nos “plantamos” lá até que chegaram os comensais.
Esperamos o término do almoço para colher as fotos. Ao final, o chefe dos garçons veio com a nota e o Dr. Chateaubriand tomou a frente. Nem leu, assinou a conta e datou. Minha surpresa foi quando ele deu boa gargalhada e disse:
– Este é meu cheque. Mande para o Diário!
Cheguei a ficar bem perto do homem que era considerado conforme o título do livro de Fernando Morais, que depois virou filme. No dia seguinte, nossa reportagem foi publicada na primeira página:
Assis Chateaubriand, de passagem pelo Recife, oferece banquete às Classes Produtoras de Pernambuco.
Entretanto, sabedor que o magnata dos Diários Associados dominava bem o vernáculo, fiquei ansioso para perguntar a ele como se concluir bem uma crônica.
Mas, minha missão era apenas reportar, não entrevistar. E reconhecendo a minha função de aprendiz, diante do “Rei da Imprensa Brasileira”, permaneci calado.
Se eu tivesse alguma intimidade com ele, teria perguntado qual a maneira de findar uma crônica com alguma palavra ou frase expressiva. Certamente teria ele dito que eu explicasse ao leitor o que significava a palavra anadiplose.



